O Amazonas volta a entrar em estado de alerta diante da possibilidade de um novo super El Niño atingir a Amazônia nos próximos meses. O fenômeno climático preocupa autoridades, pesquisadores e especialistas porque pode provocar uma combinação perigosa de seca extrema, queimadas, isolamento de municípios e crise no abastecimento em pleno ano eleitoral.

Em um estado de dimensões continentais como o Amazonas, onde os rios funcionam como estradas e milhares de comunidades dependem exclusivamente da navegação, qualquer alteração severa no regime de chuvas rapidamente se transforma em problema econômico, social e político.

O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e costuma reduzir as chuvas na Amazônia. Quando ocorre de forma intensa, os efeitos são devastadores. Os rios baixam rapidamente, embarcações deixam de circular, o preço dos alimentos aumenta e cidades inteiras enfrentam dificuldades para receber combustível, medicamentos e mercadorias. Nos últimos anos, como em 2023, o Amazonas já viveu secas históricas que deixaram comunidades isoladas e provocaram prejuízos milionários.

A preocupação agora é ainda maior porque os efeitos climáticos extremos passaram a ocorrer em sequência e com intensidade crescente. Especialistas alertam que o aquecimento global potencializa os impactos do El Niño e aumenta o risco de incêndios florestais e queimadas descontroladas. Em Manaus, a fumaça já se transformou em um grave problema de saúde pública durante os períodos de estiagem. Crianças e idosos costumam ser os mais afetados pelo aumento das doenças respiratórias.

No interior, a situação tende a ser ainda mais grave. Municípios distantes dependem quase totalmente do transporte fluvial e muitos não possuem estrutura para enfrentar longos períodos de seca. Quando os rios atingem níveis críticos, comunidades indígenas, ribeirinhas e pequenos produtores rurais sofrem diretamente com a dificuldade de acesso a água, alimentos e atendimento médico.

O cenário se torna ainda mais delicado porque o possível agravamento da estiagem ocorrerá em um ano eleitoral. Isso significa aumento da pressão sobre prefeitos, governo estadual e governo federal. A população cobra respostas rápidas diante de crises que afetam o cotidiano de forma imediata. Problemas no abastecimento, aumento de preços, fumaça intensa e dificuldades de transporte acabam se tornando fatores de desgaste político.

Além disso, a própria logística eleitoral pode enfrentar obstáculos em regiões onde a navegação é a única forma de acesso. Em várias áreas do Amazonas, urnas e equipes da Justiça Eleitoral dependem dos rios para chegar às comunidades mais isoladas.

O governo federal e o governo do Amazonas já discutem medidas preventivas como reforço da Defesa Civil, combate às queimadas, dragagem emergencial de rios e ampliação do monitoramento climático. O desafio, porém, continua enorme. O tamanho do Amazonas e as limitações históricas de infraestrutura dificultam qualquer operação emergencial.

Mais do que uma ameaça ambiental, o super El Niño representa hoje um teste para a capacidade do poder público de antecipar crises e proteger populações vulneráveis. O Amazonas está novamente diante de um fenômeno que pode afetar não apenas o clima, mas também a economia, a saúde pública e a estabilidade social do estado. É preciso correr contra o tempo.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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