Antes de tudo, vale esclarecer que, enquanto São Paulo cresceu durante décadas amparado pela proximidade dos grandes mercados consumidores, pela melhor infraestrutura logística do país, pelos maiores investimentos públicos e privados e pela concentração do sistema financeiro nacional, o Amazonas sempre enfrentou isolamento geográfico, custos elevados de transporte e abandono estrutural da União. O Amazonas sempre foi o “patinho feio” do país.

Comparar a realidade industrial paulista com a amazônica como se fossem iguais é ignorar o próprio mapa do Brasil.

A Constituição de 1988 reconheceu essa desigualdade regional ao proteger a Zona Franca de Manaus como política permanente de desenvolvimento. A reforma tributária reafirmou expressamente a necessidade de preservação do diferencial competitivo da ZFM. Portanto, não há qualquer “favor” ao Amazonas. Há apenas o cumprimento da Constituição e da vontade soberana do Congresso Nacional.

O que a Fiesp chama de “distorção” é, na verdade, compensação constitucional. Sem incentivos robustos, poucas indústrias escolheriam produzir a milhares de quilômetros dos grandes centros consumidores, enfrentando custos logísticos infinitamente superiores aos do Sul e Sudeste. A Zona Franca existe porque o Brasil decidiu integrar a Amazônia à economia nacional sem destruir sua floresta.

A postura da Fiesp revela, mais uma vez, uma visão egoísta e concentradora de país. Setores que historicamente acumularam riqueza, infraestrutura, crédito, universidades, rodovias, portos e investimentos públicos agora se incomodam porque uma região historicamente esquecida conseguiu construir um modelo econômico capaz de gerar empregos e arrecadação.

É importante lembrar que o Sul e o Sudeste concentram renúncias fiscais, subsídios, financiamentos públicos e investimentos federais muito superiores ao custo atribuído à Zona Franca de Manaus. Durante décadas, bilhões foram direcionados para sustentar cadeias produtivas e infraestrutura nessas regiões sem que isso fosse tratado como “privilégio” ou “ameaça federativa”.

Quando os benefícios ficam no eixo econômico tradicional, chamam de política industrial. Quando chegam à Amazônia, chamam de “distorção”.

A Fiesp precisa entender que a Zona Franca não retira desenvolvimento de São Paulo. Ela apenas impede que o Amazonas permaneça condenado à pobreza e à dependência econômica. Além disso, o modelo cumpre papel ambiental estratégico ao manter empregos formais e atividade econômica legal em plena Amazônia, reduzindo pressões por desmatamento, garimpo ilegal e exploração predatória.

A tentativa de enfraquecer a ZFM não é apenas uma disputa tributária. É uma disputa sobre qual Brasil queremos construir: um país concentrado em poucas regiões ricas ou uma federação minimamente equilibrada, capaz de oferecer oportunidades também à Amazônia.

O Amazonas não pede privilégios. Exige respeito à Constituição, ao pacto federativo e ao direito de existir economicamente com dignidade. A Fiesp nem ninguém pode solapar esse direito.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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