“Não quero ir para a escola.”
A frase pode surgir numa manhã qualquer, entre o café e a pressa para sair de casa. Às vezes, é apenas vontade de dormir mais, continuar brincando ou permanecer perto da família. Afinal, nem todos os dias temos a mesma disposição. Mas, quando essa resistência se torna frequente, vale compreender o que a criança está tentando expressar.
A escola ocupa um lugar importante no desenvolvimento infantil. É onde a criança amplia conhecimentos, constrói amizades, desenvolve autonomia e aprende a conviver com diferentes pessoas e situações. Essas experiências contribuem não apenas para a aprendizagem, mas também para o desenvolvimento emocional e social.
Uma revisão sistemática de Štremfel e colaboradores (2024), reunindo 86 estudos, destacou a importância do sentimento de pertencimento escolar para aspectos acadêmicos, comportamentais e psicológicos. Sentir-se acolhida, participar das atividades e estabelecer vínculos positivos são experiências que favorecem a relação da criança com a escola. Entretanto, essa relação pode passar por mudanças ao longo do desenvolvimento. Novas exigências escolares, dificuldades em determinadas matérias, mudanças na rotina ou desafios nas relações sociais podem influenciar a motivação e a disposição para frequentar as aulas.
Uma revisão de Leduc e colaboradores (2024), baseada em 15 estudos, identificou diferentes fatores emocionais, sociais e escolares associados à recusa escolar, incluindo ansiedade e dificuldades de aprendizagem. É importante compreender, porém, que a recusa escolar envolve dificuldades mais significativas de frequência e não deve ser confundida com a resistência ocasional de uma criança.
Por isso, observar o comportamento infantil é fundamental. Mudanças persistentes no sono, no humor, na disposição para as atividades ou no desempenho escolar podem indicar que a criança precisa de maior atenção. Esses sinais não representam, necessariamente, um transtorno, mas merecem ser compreendidos em seu contexto.
O diálogo entre família e escola é um dos caminhos mais importantes. Conversar com a criança sobre suas experiências, reconhecer suas dificuldades e ouvir a percepção dos professores permite compreender melhor suas necessidades e construir estratégias de apoio. Quando existem dificuldades persistentes de atenção, memória, linguagem ou aprendizagem, uma avaliação neuropsicológica, quando indicada, pode ajudar a compreender o perfil cognitivo e comportamental da criança e orientar estratégias que favoreçam seu desenvolvimento.
Da mesma forma, o acompanhamento psicológico pode contribuir quando há sofrimento emocional ou dificuldades importantes de adaptação, ajudando a criança a desenvolver recursos para lidar com emoções e desafios cotidianos.
Nem toda dificuldade escolar precisa de intervenção clínica. Muitas situações fazem parte do desenvolvimento e podem ser acolhidas com diálogo, paciência e ajustes na rotina. Quando as dificuldades persistem ou prejudicam o bem-estar e a aprendizagem, buscar orientação profissional pode ajudar a identificar as necessidades da criança.
Mais do que perguntar por que a criança não quer ir à escola, precisamos compreender como ela está vivendo essa experiência. Quando família, escola e profissionais de saúde trabalham em parceria, ampliam as possibilidades de promover uma infância emocionalmente saudável e uma relação positiva com a aprendizagem.

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