O Amazonas ampliou de 25% para 64,2% o número de escolas públicas com acesso à internet nos últimos dez anos, segundo o Censo Escolar 2025. O avanço é expressivo, mas ainda mantém o Estado abaixo da média nacional, de 93,1%, e revela uma desigualdade persistente: enquanto Manaus se aproxima da universalização, municípios do interior seguem com acesso limitado ou inexistente.
A diferença aparece com mais força quando se observa o território, nas áreas urbanas, o índice saltou de 76% para 93,1% entre 2015 e 2025. Já nas áreas rurais, embora tenha havido crescimento, a cobertura chegou a 52,5%, partindo de apenas 6,5% há dez anos.
O avanço também alcançou populações historicamente excluídas, em escolas quilombolas, o acesso saiu de 0% para 66,7%. Na educação indígena, passou de 2,7% para 46,3%.
Capital

Na prática, as tecnologias moldam e transformam o cotidiano escolar. Em Manaus, o professor de Língua Portuguesa Micael Ferreira já incorporou recursos digitais à rotina em sala de aula.
“Eu deixei de depender só do livro didático. Hoje, levo música, filmes, slides… mesmo que isso me dê o dobro de trabalho e leve o triplo de tempo para organizar tudo, sempre vale muito a pena. Nunca me arrependi de ministrar as aulas que sempre sonhei em ter”, afirmou.
Segundo ele, o impacto aparece no comportamento dos alunos. “Os alunos sempre participam mais quando há recursos diferentes na aula. É recompensador aguçar a curiosidade, propor formas que disfarcem a timidez e instigar a superação de dificuldades”, explicou.
A capital concentra os melhores indicadores. Dados da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) mostram que 78,2% das escolas municipais de Manaus possuem conectividade adequada – acima da média nacional – beneficiando mais de 240 mil alunos. Das 505 unidades mapeadas, 395 atendem aos parâmetros exigidos.
Mesmo nesse cenário mais estruturado, Micael aponta que o maior desafio não está apenas no acesso, mas na formação docente. “Em 12 anos de atuação, posso afirmar que ainda não temos uma formação suficiente para gerar impacto positivo nas aulas. Precisamos de especializações, acesso a novas metodologias e estratégias que realmente acompanhem o professor. Não adianta só encontros esporádicos”, diz.
Interior

Fora da capital, os desafios são mais estruturais. Em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, apenas 99 das 217 escolas têm acesso à internet. Muitas estão em áreas acessíveis apenas por via fluvial, onde a instalação depende de soluções como energia solar e conexão via satélite. Enquanto a internet não chega, o ensino segue baseado em livros e materiais impressos.
Para reduzir esse isolamento, o Estado aposta no Ensino Presencial com Mediação Tecnológica. O modelo, coordenado pelo Centro de Mídias de Educação do Amazonas (Cemeam), atende 60 municípios e 840 localidades, com 1.952 turmas ativas. As aulas são transmitidas ao vivo, com acompanhamento pedagógico em tempo real.
Em nota, a Secretaria de Educação do Amazonas (Seduc-AM) afirmou que há monitoramento contínuo do aprendizado, com apoio de pedagogos e uso de sistemas digitais para frequência, conteúdos e notas.
Entre as dificuldades, a pasta destacou a conectividade instável, a logística e a necessidade de integrar melhor a tecnologia à prática pedagógica.
Para o consultor educacional Alvaro Sanches, o problema não é apenas estrutural. “Equipar escolas não resolve tudo. O uso pedagógico da tecnologia ainda é um gargalo. Às vezes, o professor consegue usar o datashow, mas não transforma isso em uma aula mais atrativa”, explicou.
Ele também chama atenção para um novo fenômeno em sala de aula: o uso da inteligência artificial pelos alunos. “Muitos trabalhos deixam de passar pelas etapas de pesquisa e reflexão. A tecnologia encurta o caminho, mas pode comprometer a aprendizagem se não houver orientação”, alertou.

Tecnologia no ensino superior
Enquanto o ensino básico enfrenta desafios de acesso e uso, no ensino superior a tecnologia aparece como condição essencial para a produção científica. A mestranda Sabrina Ribeiro, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destaca que sua pesquisa depende diretamente de equipamentos tecnológicos e laboratoriais.
Ela investiga o reaproveitamento da levedura que sobra da produção de cerveja para uso na alimentação de aves, como uma alternativa nutritiva e mais sustentável. Para isso, utiliza processos como centrifugação para separar líquidos, secagem em estufa para retirar a umidade e trituração até transformar o material em um ingrediente utilizável.
“A ciência e o ensino público no Brasil dependem dessas tecnologias e do suporte financeiro para continuar existindo, especialmente no Amazonas”, reforçou.
Entre 2023 e 2025, o governo federal investiu cerca de R$ 3 bilhões em conectividade escolar. No Brasil, aproximadamente 96 mil escolas já possuem internet em padrão adequado, beneficiando cerca de 24 milhões de estudantes.
No Amazonas, porém, a combinação de grandes distâncias, comunidades isoladas e alto custo de infraestrutura faz com que a universalização avance, mas de forma lenta.
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