Entre o fogo que consome a floresta e o clique que constrói autonomia de meninas e mulheres, a fotojornalista Carolina Caramurú, aos 23 anos, vive um momento que se apresenta menos como marco de carreira e mais como ponto de inflexão.
Nos meses de abril e maio deste ano, Caramurú estreia suas duas primeiras exposições individuais, conectando dois mundos: de um lado, Toulouse, na França; de outro, Novo Airão, no coração da Amazônia.
Além disso, lança o projeto “Elas Clicam.”, uma iniciativa independente de fotografia documental voltada para mulheres em territórios de vulnerabilidade social.
A agenda dupla marca o que Caramurú define como um “sinal de fumaça”, um aviso ao mundo de que seu trabalho assume agora um posicionamento firme, artístico e político. “É uma demarcação de território. A partir de agora, meu foco é fazer o que acredito e garantir que outras mulheres ocupem sempre esses espaços”, afirma a fotógrafa.
Sua trajetória, por sua vez, tem sido marcada por conquistas que chegam em sequência. Seus primeiros prêmios vieram em meses seguidos e, agora, suas duas primeiras exposições também. Para Caramurú, essa duplicidade simboliza um novo ciclo de força feminina e amadurecimento artístico.
Entre a floresta e o fogo
As exposições apresentam recortes distintos em dois continentes. Em Toulouse, no La Candela café Culturel Associatif, serão expostas nove obras no dia 18 de abril, a convite da associação cultural “L’Amazonie en Mouvement”.
Já no Brasil, entre 3 e 17 de maio, a Galeria Jirau, em Novo Airão, estreia as exposições fotográficas no espaço, com uma seleção ampliada de 13 imagens.
As fotografias resultam de uma presença contínua nos territórios e carregam uma carga pessoal intensa. Para Caramurú, o tema “Desmatamento e Amazônia” ultrapassa a cobertura jornalística e se torna uma questão íntima.
“Minha avó morreu com problemas respiratórios no interior do Pará. Isso atravessa meu olhar e pontua a minha urgência com este tema. Essas fotos materializam meu compromisso não só com o que vejo, mas com o que vivo e sinto”, desabafa.
Projeto Elas Clicam

Além das exposições, o gesto mais transformador da fotógrafa está no lançamento do projeto “Elas Clicam.”. Com a iniciativa, Caramurú propõe uma inversão histórica: retirar mulheres da posição de objeto e colocá-las como autoras de suas próprias narrativas.
Inspirado no pensamento de Paulo Freire, o projeto nasce como ferramenta de transformação e ruptura. Ele se estrutura em pequenos grupos, escuta ativa e fortalecimento da autonomia, especialmente em territórios invisibilizados.
O projeto surge, ainda, como resposta à desigualdade de gênero na profissão. Dados do World Press Photo indicam que mulheres representam menos de 20% dos profissionais da área; no fotojornalismo, esse número cai para cerca de 15%.
A proposta inclui oficinas de fotografia documental para grupos de até 10 mulheres e meninas, a partir dos 14 anos, com foco em comunidades periféricas e de baixo IDH.
A metodologia segue os “Círculos de Cultura” de Paulo Freire, nos quais participantes discutem seu cotidiano para decidir o que desejam valorizar ou denunciar por meio da imagem.
“Fui uma dessas meninas. Lutei pela primeira câmera e dormi na rua em São Paulo para trabalhar. Agora, quero que elas deixem de ser objeto para se tornarem sujeitos de suas histórias”, explica Caramurú.
Além disso, o projeto busca parceiros e padrinhos para garantir equipamentos e mentorias, criando uma ponte concreta com o mercado de trabalho.
Raízes e influências

Nascida em Manaus e criada em Santarém (PA), Caramurú define o fotojornalismo como sua “metade sisuda” e a fotografia documental como seu lado mais sentimental.
Apesar da pouca idade, já fotografou figuras públicas como Manuela D’Ávila e Luana Piovani, mas segue ampliando suas referências além da técnica.
Suas inspirações passam pela literatura de Simone de Beauvoir, Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector. Para a fotógrafa, comunicar na Amazônia é disputar narrativa.
“Durante décadas, fomos contados por olhares de fora, exotificados ou reduzidos a desastres. Minha maior inspiração profissional é minha avó, que administrou oito filhos e me construiu. É essa capacidade de gestão e resistência que levo para cada trabalho. O que mais quero é que Elas Cliquem”, finaliza.
Serviço
Exposição “Signaux de fumée ” (França)
Data: 18 de abril de 2026.
Local: La Candela café Culturel Associatif, Toulouse, França
Entrada: Gratuita.
Exposição “Entre a Floresta e o Fogo” (Brasil)
Data: 03 a 17 de maio de 2026.
Local: Galeria Jirau (Novo Airão, AM).
Entrada: Gratuita.

Projeto Elas Clicam
O que é: Oficinas de fotografia documental para mulheres e meninas de populações marginalizadas.
Como apoiar: Através de apadrinhamento para doação de equipamentos e bolsas de estudo.
Informações: [email protected]
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