Houve um dia em que o Amazonas discutia borracha, soberania, fronteira, floresta, desenvolvimento. Hoje discute Gabriel Silva. Evoluímos muito. Charles Darwin choraria de emoção.

Eu estava tranquilamente cuidando da minha vidinha amazônica, vendo o Rio Negro passar com mais dignidade que muito influencer de internet, quando descubro que a República Federativa do Escândalo Virtual entrou em estado de sítio só porque um rapaz de TikTok resolveu declarar guerra à Zona Franca de Manaus. 

Não foi a China que se atirou contra a ZFM. Não foi o FMI. Não foi uma comissão do Senado americano sob o comando do tacanho Donald Trump. Foi um cidadão cuja principal contribuição intelectual ao país parece ser falar alto diante de um iluminador em formato de anel comprado em doze vezes sem juros.

E aí começou a tragédia grega de igarapé. Deputado pra cá, senador pra lá, nota oficial, vídeo indignado, entrevista grave, expressão fechada, dedo em riste, como se o sujeito tivesse acabado de apertar o botão vermelho e lançado uma ogiva nuclear sobre o Distrito Industrial. Faltou só a ONU convocar reunião extraordinária e o Conselho de Segurança discutir sanções contra o algoritmo.

Gabriel diz que a Zona Franca “não serve para nada”. E, prontamente, o Estado inteiro reage como se Winston Leonard Spencer Churchill tivesse desembarcado em Manaus anunciando o fim da civilização ocidental. Ora, minha Nossa Senhora da Ponta Negra, desde quando influencer bolsonarista virou autoridade em política industrial? É o mesmo que pedir análise de física quântica a comentarista de churrasco de condomínio.

O espanto maior não é a fala. É a liturgia da resposta. Prestem atenção: o cidadão acorda, toma um complemento proteico  bem patriótico, grava três minutos de besteira sobre “fábrica no meio da floresta” e, de repente, meia elite política amazônica abandona seus afazeres para responder ao novo herói dos vídeos curtos, campeões de audiência. Daqui a pouco vão convocar audiência pública na Assembleia Legislativa do Amazonas para rebater comentário de YouTube com foto de anime.

Pandemônio digital

A internet criou uma tragédia moderna: o idiota agora tem engajamento estatístico. E o mais bonito é o mecanismo da coisa. O sujeito fala uma simplificação grotesca, como “fecha tudo e compra da China”, e imediatamente as redes sociais entram em orgasmo cívico. Porque a mentira curta viaja de jatinho, enquanto a verdade pega rabeta no interior do Estado.

A Zona Franca é complexa. Exige contexto histórico, logística, tributação, soberania territorial, preservação ambiental, integração nacional. Já a fake news cabe numa legenda com emoji de fogo. A burrice, hoje, é multimídia.

Nesse pandemônio digital, convenhamos: a cobertura da Revista Cenarium teve ao menos a rara elegância de não transformar o episódio numa micareta histérica. Ouviu especialistas, contextualizou ataques antigos, mostrou o componente ideológico, econômico e regional do debate, como manda o jornalismo de excelência. 

E diga-se: atacar a Zona Franca virou esporte nacional de quem nunca passou da janela premium do aeroporto de Brasília. O sujeito olha o mapa do Brasil como quem vê um terreno baldio continental: “isso aí tudo é mato”. Não compreende que a ZFM não é apenas renúncia fiscal, mas um pacto geopolítico para manter a Amazônia economicamente viva sem transformar a floresta em um deserto desvairado.

Mas nuance não viraliza. O que viraliza é o caboclo digital dizendo que “é só importar da China”, como se empregos fossem legumes de supermercado e como se soberania territorial pudesse ser substituída por cupom de frete grátis.

Algoritmo quer sangue

Aí aparecem os especialistas explicando que, sem a Zona Franca, boa parte da produção simplesmente iria para fora do Brasil. Explicam preservação ambiental. Explicam arrecadação indireta. Explicam interiorização econômica. Explicam logística. Explicam industrialização regional. Tudo muito bonito. Tudo muito racional.

Só esqueceram um detalhe fundamental: algoritmo não lê nota técnica. Algoritmo quer sangue, gritaria e gente ofendida em caixa alta. E conseguiu.

O episódio inteiro acabou funcionando como aquelas brigas de família em almoço de domingo: ninguém resolve nada, mas todo mundo sai suado e alguém quebra um copo. Gabriel Silva provavelmente ganhou seguidores, as redes ganharam tráfego, os indignados ganharam cliques e o brasileiro médio continuou sem entender absolutamente nada sobre a Zona Franca de Manaus, exceto que aparentemente ela é capaz de provocar mais comoção que aumento da gasolina.

No fundo, a grande vitória da internet foi essa: transformar um debate estratégico sobre Amazônia e desenvolvimento nacional numa rinha de stories.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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