O Dia dos Namorados costuma ser marcado por flores, presentes e declarações de afeto. Embora esses gestos tenham seu valor, existe um elemento muito menos visível — e muito mais determinante para a saúde de um relacionamento: a comunicação.

Curiosamente, muitos casais não enfrentam dificuldades por falta de amor. O problema surge quando sentimentos, expectativas e necessidades deixam de ser comunicados e passam a ser presumidos. Em algum momento, instala-se a crença de que quem ama deveria saber o que o outro pensa, sente ou precisa, sem que seja necessário dizer. Mas relacionamentos saudáveis não são construídos sobre adivinhações; são construídos sobre diálogo.

A ciência tem mostrado que a qualidade dos relacionamentos exerce influência significativa sobre a saúde mental. Um estudo publicado em 2024 na revista Nature Human Behaviour, conduzido por Zhai e colaboradores com mais de 100 mil participantes de diferentes países, observou associações entre vínculos afetivos e sintomas depressivos. Os resultados reforçam que as relações interpessoais podem funcionar como importantes fatores de proteção emocional.

No entanto, existe um detalhe fundamental: não é qualquer relacionamento que promove bem-estar. Outra pesquisa recente, conduzida por Roth et al. (2024), acompanhou casais durante dez anos e identificou que níveis mais elevados de satisfação conjugal estiveram associados a melhores indicadores de saúde mental, afeto positivo e satisfação com a vida. Em outras palavras, a presença de um parceiro não é suficiente; a qualidade da convivência é o que faz diferença.

E é justamente nesse ponto que a comunicação se torna essencial.

Grande parte dos conflitos cotidianos não nasce de grandes acontecimentos, mas de expectativas não comunicadas. Nos consultórios, é comum ouvir frases como “ele deveria saber” ou “ela deveria perceber”. Contudo, relacionamentos saudáveis não se sustentam pela capacidade de adivinhar o outro, mas pela disposição de conversar sobre necessidades, sentimentos e expectativas. Isso não significa falar mais, mas falar melhor. Significa substituir acusações por descrições, críticas por pedidos claros e julgamentos por curiosidade genuína. Significa aprender a ouvir não apenas para responder, mas para compreender.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é a demonstração cotidiana de afeto. Pequenos gestos de reconhecimento, respeito, gratidão e atenção possuem impacto significativo na construção da segurança emocional. Relacionamentos saudáveis não são sustentados apenas por grandes declarações em datas comemorativas, mas por comportamentos repetidos ao longo do tempo.

Talvez uma das reflexões mais importantes para este Dia dos Namorados seja lembrar que amar não é adivinhar. É perguntar, escutar, conversar e demonstrar interesse genuíno pelo mundo interno de quem está ao nosso lado.

Porque, no fim das contas, o que fortalece um relacionamento não é a ausência de conflitos, mas a capacidade de atravessá-los sem perder o respeito, a conexão e a disposição para compreender o outro.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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