Assisti ao filme Dia D, de Steven Spielberg, e não pude deixar de relacionar sua narrativa com a intensidade com que documentos sobre OVNIs vêm sendo divulgados pelo governo dos Estados Unidos, além dos constantes relatos mundo afora sobre fenômenos aéreos não identificados. O filme é, no mínimo, intrigante, porque coloca diante do público uma questão que já não parece pertencer apenas ao campo da ficção científica: e se parte daquilo que sempre foi tratado como fantasia estiver mais próximo da realidade do que imaginamos?
A obra parte das seguintes premissas: a existência de arquivos secretos, tecnologias extraterrestres, contatos antigos entre humanos e alienígenas e uma estrutura de poder interessada em manter tudo em sigilo. Spielberg transforma essa hipótese em suspense, mas também em reflexão. O filme não trata apenas de extraterrestres; trata do medo humano diante da verdade, da dificuldade das instituições em revelar aquilo que não conseguem controlar e da resistência da sociedade em aceitar que talvez não estejamos sozinhos no universo.
É importante dizer que a linguagem do universo é a matemática. O ser humano, porém, possui limitações para entender os mistérios da matemática e do próprio universo. Criamos conceitos para tentar explicar aquilo que nossa mente não consegue alcançar plenamente. Um desses conceitos é o infinito (∞), um conceito matemático para algo sem fim ou limites, uma espécie de solução para lidar com algo que ultrapassa nossa experiência cotidiana. Falamos em infinito, mas dificilmente conseguimos compreendê-lo em sua verdadeira dimensão.
Grande parte da literatura científica sobre o universo adota a teoria do Big Bang e a tese de que o universo está em expansão, possivelmente tendendo ao infinito. Ora, o próprio conceito de infinito é algo extremamente difícil de ser compreendido pelo ser humano. Para nós, quase tudo parece ter começo, meio e fim. A vida começa, amadurece e termina. As estações passam. Os ciclos se encerram. Mas e o universo? Ele teve um começo? Terá um fim? E, se não tem fim, como podemos falar em meio?
A partir daí, entramos também na esfera filosófica. Se o universo tende ao infinito, algo praticamente inimaginável para o ser humano, como é possível supor que somente nós tenhamos o privilégio de existir? Como admitir que, em meio a bilhões de galáxias, estrelas e planetas, o universo seja um imenso vazio, sem outras formas de vida? Não se trata de afirmar categoricamente que extraterrestres existem, mas de reconhecer que a hipótese de sermos os únicos parece, no mínimo, pretensiosa.
É nesse ponto que Dia D se torna ainda mais provocador. O filme não apenas apresenta a possibilidade de vida extraterrestre, mas também sugere que a revelação dessa verdade teria efeitos políticos, sociais, científicos e espirituais. A humanidade seria obrigada a rever sua posição no cosmos. Governos seriam cobrados por seus silêncios. A ciência teria de ampliar suas perguntas. E a religião, inevitavelmente, seria chamada a dialogar com uma realidade muito maior do que aquela que tradicionalmente imaginamos.
Daí chegamos à questão religiosa. A história comum que sempre nos foi ensinada é a de que Deus todo-poderoso criou o universo e toda a vida existente, que somos filhos de Deus e que um dia seremos julgados por Ele. Conforme nosso merecimento, iremos para um lugar que convencionamos chamar de céu ou, do contrário, para o inferno. Essa narrativa ocupa um lugar profundo na formação espiritual, moral e cultural de grande parte da humanidade.
Mas o filme pode levar muitos a se questionarem: se extraterrestres existem, então toda essa história não seria verdadeira? Se os seres humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, isso significaria que Deus não existe? A meu ver, essa conclusão é precipitada. Por que não poderíamos acreditar, ao mesmo tempo, na existência de extraterrestres e na existência de Deus?
Não vejo óbice algum para a existência de ambos. Se Deus existe e criou o universo, então criou não apenas a Terra, mas também tudo aquilo que existe além dela. Se há vida em outros planetas, essa vida também estaria inserida na criação divina. A existência de extraterrestres não diminuiria Deus; ao contrário, poderia ampliar ainda mais a dimensão de sua obra.
Talvez o grande problema esteja na nossa dificuldade de aceitar que não somos o centro absoluto da criação. A história da humanidade sempre foi marcada por descobertas que diminuíram nossa pretensão: descobrimos que a Terra não era o centro do universo, que o Sol era apenas uma estrela entre bilhões e que nossa galáxia era apenas uma entre incontáveis outras. Se um dia descobrirmos que não estamos sozinhos, talvez essa seja apenas mais uma etapa desse processo. Dia D, nesse sentido, não é apenas um filme sobre OVNIs. É uma provocação sobre fé, ciência, verdade e humildade diante do infinito.

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