A bem da racionalidade, vale alertar que o recente padrão de apreensões de ouro ilegal em Roraima e no entorno da Amazônia revela algo que vai muito além de operações isoladas: há uma transformação estratégica nas rotas do crime que exige resposta imediata do Governo Federal e dos estados do Amazonas e Roraima.

Em 2025, ações coordenadas da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal em Roraima resultaram em dezenas de apreensões de ouro ilegal — mais de 200 quilos interceptados em diferentes operações, com valores estimados em dezenas de milhões de reais. Só em operações na BR-174 e na BR-401, grandes volumes de ouro foram retirados de circulação em veículos e aeronaves suspeitos, em vários flagrantes ao longo do ano.

Esses números não são mera estatística: eles mostram que as rotas clandestinas, muitas vezes ligadas a garimpos ilegais no Amazonas e Pará, estão se consolidando em direção a Roraima, de onde o ouro é contrabandeado para países vizinhos como Venezuela e possivelmente Guiana e Suriname.

O que preocupa mais é que as rotas estão se adaptando à fiscalização. Enquanto ações de repressão crescem no interior da Amazônia, caminhões, aeronaves e transportes terrestres têm sido usados para movimentar minério sem documentação legal. E o estado de Roraima, com sua fronteira extensa e fiscalização ainda insuficiente em trechos secundários, está se tornando um corredor de saída para o ouro ilegal, um território de passagem para redes criminosas transnacionais.

O cenário toma ainda mais relevância diante da inauguração planejada da super rodovia da Guiana, prevista para 2030, que ligará a Guiana diretamente a Boa Vista e Manaus. Sem uma estratégia de segurança integrada e antecipada, essa nova infraestrutura vai simplificar o trânsito de mercadorias — legais e ilegais — criando um corredor eficiente para o crime organizado expandir, a um só tempo, o contrabando de ouro, de drogas, de armas e outras atividades ilícitas.

O reforço da fiscalização rodoviária e aduaneira nas fronteiras brasileiras — incluindo pontos remotos e rotas alternativas — precisa ser planejado agora, não em 2030. Ferramentas de inteligência, tecnologia de rastreamento, cooperação entre as polícias federal, rodoviária e estaduais, além de convênios com países vizinhos como Guiana e Venezuela, são necessários para dificultar que as redes criminosas se antecipem ao Estado.

É urgente que Brasília, Manaus e Boa Vista deixem de ver essas apreensões como eventos isolados e as interpretem como sintoma de uma reorganização do crime no coração da Amazônia. Se não houver ação coordenada, a super rodovia será menos um vetor de desenvolvimento e mais uma esteira de saída para o ouro e outros produtos extraídos ou contrabandeados ilegalmente.

Claro que o tempo para reagir é curto. O crime organizado já percebeu a oportunidade dourada. Agora falta ao Estado brasileiro corresponder à altura, antes que a Amazônia se torne mais que um palco de destruição ambiental, sendo usada como a base logística de um novo ciclo de tráfico transnacional.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi

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