O Carnaval é, para muitos brasileiros, um dos momentos mais aguardados do ano. Representa encontro, cultura, música, pertencimento e celebração coletiva. Ao mesmo tempo, chega logo após um período marcado por excessos emocionais e físicos. Natal, Réveillon, férias, retomada da rotina, trânsito intenso e compromissos acumulados antecedem a maior festa popular do país. Esse encadeamento ajuda a compreender por que, para algumas pessoas, o Carnaval também revela sinais de cansaço emocional.
Do ponto de vista científico, eventos coletivos e festivais culturais podem ter efeitos positivos sobre o bem-estar psicológico. Estudos indicam que a participação em festas comunitárias está associada ao aumento do bem-estar subjetivo e do senso de pertencimento social, fatores importantes para a saúde mental (Ahn et al., 2023). Música, dança e convivência estimulam vínculos e ativam circuitos cerebrais relacionados ao prazer e à conexão social, funcionando como reguladores emocionais naturais.
Esses efeitos, no entanto, não são universais. Pesquisas em psicologia social mostram que o impacto emocional de grandes eventos depende do estado psicológico prévio de cada pessoa e da forma como a experiência é vivenciada. Para quem chega ao Carnaval já exausto, com privação de sono, estresse acumulado ou fragilidade emocional, o excesso de estímulos pode intensificar ansiedade, irritabilidade e sensação de sobrecarga. O problema não é a festa em si, mas o cansaço que se acumula silenciosamente ao longo do tempo.
O Carnaval também expõe uma expectativa social implícita: a de que todos devem estar felizes e disponíveis para celebrar. Essa pressão pode gerar desconforto em quem não se sente no mesmo ritmo, reforçando sentimentos de inadequação ou isolamento. Estudos sobre saúde mental em períodos festivos indicam que pessoas em situação de vulnerabilidade emocional podem apresentar intensificação de sintomas quando sentem que não correspondem ao clima coletivo de euforia (WHO, 2022).
Quando vivido com consciência, o Carnaval pode ser uma experiência saudável. Alternar momentos de folia com descanso, respeitar limites físicos e emocionais, manter sono e hidratação adequados e reconhecer que não existe uma única forma correta de viver a festa são atitudes que protegem a saúde mental. Evidências mostram que a autorregulação emocional e a escuta dos sinais do corpo são fatores centrais para o equilíbrio psicológico em contextos de alta estimulação.
Falar de saúde mental no Carnaval não é desvalorizar a festa, mas ampliar o olhar sobre como chegamos até ela. Algumas pessoas encontram alegria e renovação na folia. Outras precisam de pausa e recolhimento. Ambas as experiências são legítimas. Saúde mental também é permitir que cada um atravesse esse período respeitando seu próprio tempo.
O Carnaval, nesse sentido, funciona como um espelho do nosso funcionamento emocional. Ele revela o quanto conseguimos reconhecer sinais de cansaço, excitação e necessidade de pausa. Estudos em neurociência indicam que o equilíbrio entre estímulo e recuperação é fundamental para a saúde mental. Para alguns, a vivência da festa contribui para a regulação emocional. Para outros, o recolhimento e o descanso são o que permitem reorganizar emoções.

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