A escravidão no Brasil constitui um dos pilares mais profundos e dolorosos da formação social, econômica e cultural do país. Por mais de três séculos, milhões de homens, mulheres e crianças africanas foram trazidas à força para o território brasileiro, submetidas a um sistema de exploração que marcou de forma permanente as estruturas sociais ainda perceptíveis na contemporaneidade.

Historicamente, a escravidão no Brasil teve início por volta de 1530, nos primeiros anos da colonização portuguesa, e perdurou até 13 de maio de 1888, quando foi formalmente abolida com a promulgação da Lei Áurea. Isso significa que o regime escravocrata esteve oficialmente em vigor por aproximadamente 388 anos, tornando o Brasil o último país do Ocidente a abolir a escravidão.

O modelo escravocrata implantado no período colonial estava diretamente ligado à lógica mercantilista europeia. A exploração da cana-de-açúcar, da mineração e, posteriormente, do café, demandava mão de obra abundante, barata e descartável. Nesse contexto, a população africana escravizada passou a ser tratada como mercadoria, reduzida à condição de coisa, sem reconhecimento de sua humanidade, cultura ou direitos.

Ao contrário do mito da passividade, os escravizados resistiram de múltiplas formas. As resistências iam desde pequenas sabotagens cotidianas até fugas organizadas e a formação de quilombos, como o Quilombo dos Palmares. Houve também resistência cultural, por meio da preservação de práticas religiosas, da oralidade, da música e da ancestralidade africana, que sobreviveram mesmo diante da repressão violenta do sistema.

A abolição, embora juridicamente relevante, não representou inclusão social. O Estado brasileiro encerrou formalmente a escravidão sem promover políticas de reparação, acesso à terra, educação ou trabalho digno aos libertos. Em 2026, completam-se 138 anos desde a abolição, um período significativamente menor quando comparado aos quase quatro séculos de escravidão institucionalizada, o que ajuda a compreender por que seus efeitos estruturais ainda se fazem sentir.

As desigualdades raciais, a marginalização econômica e a violência estrutural contra a população negra não são fenômenos isolados, mas heranças diretas de um sistema que naturalizou a desumanização por gerações. Compreender a escravidão no Brasil exige, portanto, ir além da data da abolição, reconhecendo suas continuidades históricas e a urgência de um debate sério sobre memória, justiça histórica e igualdade material.

Roseane Torres

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