Existem descobertas científicas que não cabem apenas em artigos acadêmicos, gráficos ou laboratórios. Elas atravessam vidas. Transformam histórias. Redefinem limites que, por muito tempo, pareciam definitivos. A pesquisa envolvendo a laminina caminha exatamente nesse sentido, o da ciência que não apenas explica o mundo, mas ajuda a reconstruí-lo.
A laminina é uma proteína essencial da matriz extracelular, responsável por orientar células, favorecer conexões e permitir processos de regeneração. Em linguagem simples, trata-se de uma verdadeira ponte biológica capaz de auxiliar na reorganização celular e neural, abrindo caminhos para avanços na recuperação motora e neurológica. Quando falamos de estudos que apontam possibilidades reais para pessoas com paraplegia ou tetraplegia, não estamos diante de promessas milagrosas, mas do resultado silencioso, rigoroso e persistente da ciência.
E é justamente aqui que o debate precisa ultrapassar o campo científico e alcançar o campo social e político.
Nenhuma descoberta nasce do acaso. Ciência exige investimento contínuo, educação de qualidade, universidades fortes e pesquisadores valorizados. Ainda assim, vivemos em um país onde, repetidas vezes, a educação e a pesquisa são tratadas como despesas descartáveis. Cortam-se verbas, enfraquecem instituições e, paradoxalmente, cobra-se inovação e desenvolvimento.
A pandemia da Covid-19 expôs essa contradição de forma brutal. Enquanto cientistas trabalhavam dia e noite para compreender um vírus desconhecido e salvar vidas, discursos negacionistas ganharam espaço público, atacando pesquisadores, desacreditando universidades federais e colocando em dúvida o próprio conhecimento científico. O resultado foi trágico, vidas perdidas, desinformação disseminada e uma sociedade dividida justamente quando mais precisava confiar na ciência.
A história mostra, porém, que a ciência resiste. Ela resiste porque é construída por pessoas que dedicam anos, muitas vezes décadas, a uma busca que raramente recebe aplausos imediatos. Pesquisar é insistir quando ninguém vê. É acreditar no futuro antes que ele exista.
Por isso, reconhecer o trabalho da Professora Tatiana Sampaio, bióloga, associada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular no Instituto de Ciências Biomédicas, pesquisadora dedicada ao estudo da laminina é também reconhecer o valor da ciência brasileira. Sua trajetória representa milhares de cientistas que seguem produzindo conhecimento apesar das dificuldades estruturais, da escassez de recursos e da falta de reconhecimento institucional.
Há algo profundamente simbólico no fato de essa conquista carregar o nome de uma mulher cientista. Mulheres que historicamente precisaram ocupar espaços negados, provar competência inúmeras vezes e persistir em ambientes que nem sempre foram construídos para acolhê-las. Cada avanço científico também é um avanço social.
Se a pesquisa com laminina conseguir ampliar possibilidades de recuperação neurológica, permitindo que mais pessoas voltem a andar, recuperem autonomia ou reencontrem independência, estaremos diante de algo maior do que um avanço médico. Estaremos diante da confirmação de que investir em ciência é investir em dignidade humana.
A ciência não promete milagres. Ela constrói caminhos e cada passo dado por quem volta a se mover é, antes de tudo, o resultado de anos de estudo, dedicação e coragem intelectual.
Valorizar a ciência é escolher o futuro, investir em pesquisa é escolher a vida, reconhecer pesquisadores é reconhecer quem trabalha diariamente para transformar o impossível em possibilidade. Viva a ciência.

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