Por Otoni Mesquita

São quatro belas cabeças de leão que permanecem aprisionadas no imóvel da esquina de duas ruas bastante movimentadas no centro da cidade, ou seja, na esquina da rua Marechal Deodoro com a rua Tamandaré, com a fachada pintada em verde água, um belíssimo sobrado de três pavimentos que se encontra semiabandonado.

A beleza da edificação é reduzida perante a predominância de linhas retas das construções vizinhas e se apaga perante o caos visual das ocupações irregulares que obstruem as áreas de circulação pública e abusam de cores fortes, além dos inúmeros fios elétricos e a falta de conservação da área como um todo.

O edifício fica na esquina, parece bastante desbotado, quase em frente ao antigo e abandonado prédio da Alfândega (1906) e em frente ao Cecilião, o

prédio da Receita Federal, construído na década de 1970, inaugurado, provavelmente em 1973.

São três cabeças voltadas para a rua Marechal Deodoro, duas sobre a marquise que sustenta os guarda corpo das janelas do segundo pavimento e uma outra, entre as duas janelas do terceiro pavimento. Os leões olham tristemente para o grande edifício moderno erguido bem em frente, ainda nos anos setenta. Talvez sejam um olhar de reprovação sobre a grande construção que por algumas décadas abrigou a sede da Receita Federal e lhes tirou a vista da praça. O arranha céu todo envidraçado e de construção tão mais recente já se encontra interditado, há alguns anos, por não oferecer condições de segurança para atender a função ao qual se destinava.

Para o lado da Floriano Peixoto, somente mais uma cabeça, triste e solitária, localizada sob a marquise do segundo andar, olha a paisagem tão maltratada. Há muito tempo acompanha as mudanças processadas na beira do rio Negro, quase em frente a construção de origem inglesa, que por décadas abrigou a Alfandega, mas que se encontra fechada há algum tempo.

Apesar de grande animação daquela área, sobretudo, pelo comércio informal. Grande parte das edificações, encontram-se em estado de degradação e talvez por isso seja evidente a tristeza estampada na expressão dos quatro leões. Entretanto, alerta-se que tristeza não é de agora. Eles choram desde o momento em que foram criados. Possivelmente, o seu criador – ou criadores –  tivesse um olhar crítico perante o sistema em que servia. Por isso, a tristeza dos leões poderia soar como uma crítica ao injusto sistema do comércio da borracha, onde muitos trabalhavam muitos e poucos usufruíam dos lucros.

As representações das cabeças leoninas se complementam com arranjos florais que trazem na boca. São flores e folhagens, que a primeira vista, levam a interpretar como uma mensagem de paz. Mesmo calado, os olhares dos felinos podem sugerir diferentes interpretações e vê-los como testemunhas da história, acompanhando movimento da população que transitou e transita por ali em diferentes momentos da história. População e senhores cada vez mais apressados a repetir “time is Money”. Assim seguiram explorando e ganhando cada vez mais. Inevitavelmente, o que era bom se acabou e logo chegaram as vacas magras da decadência. Os felinos foram solidários e choraram junto com os senhores e a população que por cinco décadas sofreu muitas privações.

Choraram também perante toda a falsa animação trazida pela Zona Franca com suas promessas que inflaram a cidade e iniciaram a intensificação da degradação ambiental da cidade. Continuaram chorando com os grandes projetos e as tantas levas de trabalhadores desqualificados a serem usados como massa de manobra. Já sabiam o que viria e, assim seguiam a sua sina que era chorar.

Não pensem que os leões chorões sejam mensagens do Senhor, que seus olhares tristonhos sejam um alerta para que reflitamos um pouco mais sobre nossas ações. Não, decididamente, não. Se houve alguma intenção crítica na definição do olhar dos leões, deve-se exclusivamente ao artista que criou e modelou a matriz que gerou os relevos. Pode ser que tratasse apenas de um estilo próprio do artista que deixou bem marcada a sugestão de tristeza a partir do traço diagonal dado as sobrancelhas dos animais representados. Provavelmente, se tratava de um conhecedor de recursos para expressar sentimentos humanos e a relevância do valor expressivo das sobrancelhas para melhor definir um estado de espírito. Assim, o artista aplicou seu conhecimento nas carrancas dos animais e deixou o seu recado.

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Otoni Mesquita é um artista amazonense nascido em Autazes, em 1953. Embora se destaque com os trabalhos em pintura, sua poética visual abrange múltiplas linguagens expressivas, tais como desenho, gravura, instalação e performance.

Foto: Otoni Mesquita

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