A história recente demonstra que a energia é um dos principais vetores de poder no mundo contemporâneo. Em cada conflito internacional relevante, o petróleo emerge não apenas como recurso estratégico, mas como instrumento de pressão econômica e geopolítica. Diante desse cenário, a pergunta que se impõe ao Brasil é direta e incômoda: quantas crises globais ainda serão necessárias para que o país compreenda a urgência de alcançar a autossuficiência não apenas na produção de petróleo, mas, sobretudo, em sua capacidade de refino?

O Brasil percorreu um longo caminho desde a campanha “O petróleo é nosso”, que culminou na criação da Petrobras em 1953. Durante décadas, a estatal foi símbolo de soberania nacional, estruturando uma cadeia produtiva robusta que permitiu ao país reduzir sua dependência externa. No entanto, a autossuficiência sempre foi entendida de forma incompleta, frequentemente restrita à produção de óleo bruto, e não à capacidade industrial de transformá-lo em derivados essenciais.

As crises do petróleo da década de 1970, especialmente após a Crise do Petróleo de 1973, escancararam a vulnerabilidade energética brasileira. À época, o país era fortemente dependente de importações e sofreu impactos severos na balança comercial e na inflação. Em resposta, o governo militar adotou uma estratégia de expansão da infraestrutura energética, investindo tanto em exploração quanto em refino, além de alternativas como o Proálcool.

Durante o regime militar, houve, de fato, um esforço consistente de construção de refinarias e ampliação da capacidade instalada. Projetos estruturantes foram implementados com a visão de reduzir a exposição externa. Contudo, mesmo naquele período, o crescimento da demanda interna frequentemente superava a expansão da capacidade de refino, revelando uma lacuna estrutural que persiste até hoje.

Com a descoberta do pré-sal no início do século XXI, o Brasil atingiu um marco histórico: tornou-se autossuficiente na produção de petróleo. Esse avanço consolidou o país como um dos grandes produtores globais. Entretanto, esse feito trouxe à tona uma contradição evidente: embora produza petróleo em abundância, o Brasil ainda depende da importação de derivados, como diesel, gasolina e querosene de aviação.

Essa dependência decorre da insuficiência e da inadequação do parque de refino nacional. Muitas refinarias brasileiras foram projetadas para processar petróleos mais leves, enquanto grande parte do óleo produzido no país, especialmente no pré-sal, exige unidades mais complexas de refino. A falta de investimentos contínuos em modernização e expansão agravou esse descompasso técnico e produtivo.

As tentativas de expansão da capacidade de refino ao longo das últimas décadas foram marcadas por descontinuidades, atrasos e resultados aquém do esperado. Grandes projetos estruturantes enfrentaram problemas de execução, custos muito superiores aos inicialmente previstos e envolvimento em escândalos de corrupção, o que comprometeu sua viabilidade e retardou a ampliação da infraestrutura nacional. Como consequência, consolidou-se a permanência da dependência externa em um setor estratégico para a economia brasileira.

Em um cenário global cada vez mais instável, com conflitos no Oriente Médio, tensões entre grandes potências e guerras que afetam cadeias logísticas, a dependência de importação de derivados se torna um risco econômico e estratégico. Oscilações nos preços internacionais impactam diretamente a inflação doméstica, o custo do transporte e, consequentemente, toda a economia brasileira.

A contradição brasileira é, portanto, evidente: exporta petróleo bruto e importa produtos com maior valor agregado. Isso implica perda de competitividade, geração de empregos no exterior e vulnerabilidade a choques externos. Trata-se de uma falha clássica de política industrial, em que o país abdica de capturar etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

A autossuficiência em refino não é apenas uma questão econômica, mas também de soberania nacional. Um país com as dimensões territoriais, a população e a relevância geopolítica do Brasil não pode permanecer dependente de outros para abastecer sua própria frota de caminhões, aviões e indústrias. A segurança energética deve ser tratada como política de Estado, e não como agenda conjuntural.

Diante disso, a resposta à pergunta inicial parece inevitável: nenhuma guerra adicional deveria ser necessária. O Brasil já vivenciou crises suficientes para compreender sua vulnerabilidade. Falta, agora, transformar esse aprendizado histórico em ação concreta, por meio de investimentos consistentes em refinarias, modernização tecnológica e planejamento de longo prazo, garantindo que a riqueza do petróleo se traduza, de fato, em autonomia e desenvolvimento nacional.

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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