Se você já caiu em um buraco negro da internet sobre amamentação, provavelmente encontrou de tudo: chá milagroso, canjica “obrigatória”, cerveja preta (sim, ainda insistem nisso), simpatias com colher virada na xícara e até playlists “estimulantes de leite”. A pergunta que fica é quase filosófica: estamos nutrindo bebês ou alimentando mitologias coletivas?

Antes de falar de cápsulas, fórmulas e ativos com nomes elegantes, vale um mergulho honesto na realidade. Amamentar, embora natural, está longe de ser simples. Dói, cansa, exige, testa limites físicos e emocionais. E, como se não bastasse, ainda vem o pacote premium da sociedade: julgamento gratuito, palpites não solicitados e uma expectativa quase olímpica de que toda mulher produza leite em abundância, sorrindo serenamente como numa propaganda de margarina.

Mas não. Nem sempre é assim. A produção de leite materno é um fenômeno biológico complexo, regulado principalmente por dois hormônios: a prolactina (produção) e a ocitocina (liberação). E aqui começa o primeiro ponto importante: não adianta “produzir muito” se o leite não consegue sair adequadamente. É como uma fábrica eficiente com um caminhão travado no portão.

A ocitocina, muitas vezes chamada de “hormônio do amor”, é liberada em resposta ao estímulo do bebê, ao contato pele a pele e, curiosamente, ao estado emocional da mãe. Estresse, dor, insegurança e exaustão são verdadeiros sabotadores desse processo. Ou seja, antes de pensar em cápsulas, talvez devêssemos pensar em rede de apoio, descanso e acolhimento. Menos julgamento, mais suporte. Parece simples, mas é revolucionário.

Agora, vamos à pergunta que não quer calar: existem suplementos que aumentam a produção de leite?

Resposta elegante: depende.

Resposta honesta: às vezes sim, mas não do jeito mágico que vendem.

Entre os ativos mais comentados, dois merecem atenção. A ocitocina, em uso medicamentoso, pode sim auxiliar em casos específicos, principalmente na ejeção do leite. Mas não é bala de prata e muito menos solução universal. Seu uso exige critério, indicação adequada e acompanhamento profissional. Não é suplemento de prateleira, é intervenção fisiológica.

Já a silimarina, extraída do cardo-mariano, entra em um território interessante e menos óbvio. Tradicionalmente conhecida por sua ação hepatoprotetora, ela atua como uma espécie de “organizador metabólico” do fígado. E aqui entra a conexão que pouca gente explica: o fígado é um dos grandes reguladores hormonais e metabólicos do organismo. Quando ele funciona melhor, há um equilíbrio mais eficiente de hormônios, incluindo aqueles envolvidos na lactação.

Na prática? Ao melhorar a função hepática, a silimarina pode contribuir indiretamente para um ambiente fisiológico mais favorável à produção de leite. Não é que ela “mande o corpo produzir leite”, mas ela tira obstáculos do caminho. Uma faxina estratégica na central de comando.

E sim, experiência pessoal também conta. Eu usei. E vi resultado. Mas com contexto, acompanhamento e, principalmente, alinhando expectativas com a realidade.

Agora, um alerta necessário: a internet transformou a amamentação em um terreno fértil para soluções milagrosas. E aqui vai um questionamento incômodo: será que estamos buscando atalhos porque esquecemos de olhar o todo?

Produção de leite envolve estímulo adequado (sucção eficiente ou ordenha), equilíbrio hormonal, estado emocional, nutrição, hidratação e descanso (ou pelo menos o mínimo possível dele).

Ignorar isso e apostar tudo em um único suplemento é como tentar resolver um problema estrutural com um adesivo bonito. Isso significa que suplementos não funcionam? Não. Significa que eles precisam ser usados com inteligência.

Fitoterápicos como feno-grego, erva-doce e funcho também aparecem com frequência, com evidências variáveis e resultados bastante individuais. Vitaminas do complexo B, minerais como zinco e magnésio, além de suporte nutricional adequado, podem contribuir indiretamente. Mas, de novo, contexto é tudo.

E talvez o ponto mais importante deste texto seja este: nem toda baixa produção de leite é falta de “alguma coisa”. Às vezes, é excesso de cobrança.

Existe uma linha muito tênue entre incentivar a amamentação e transformar isso em um peso emocional gigantesco. E quando o emocional pesa, a fisiologia sente. O corpo não é uma máquina sob comando autoritário. Ele responde ao ambiente, ao cuidado e, principalmente, à forma como a mãe está sendo tratada nesse processo.

Então, antes de perguntar “qual suplemento tomar?”, talvez valha perguntar:

“o que está faltando no meu contexto para que meu corpo funcione melhor?”

E aí, sim, entramos no papel da personalização. Porque não existe fórmula pronta. Existe mulher real, com rotina real, desafios reais e necessidades específicas. E é exatamente nesse ponto que entra o acompanhamento profissional.

Um farmacêutico com experiência em manipulação e saúde integrativa consegue avaliar o cenário completo: sinais clínicos, rotina, alimentação, histórico e, a partir disso, propor estratégias que podem incluir — ou não — suplementação.

Sim, você pode tentar a simpatia da colher. Não julgo. Mas talvez seja mais eficiente combinar ciência, acolhimento e estratégia. E se for para apostar em algo, que seja em informação de qualidade… e em um bom profissional ao seu lado.

Natasha Mayer é farmacêutica, formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), pós graduada em Cosmetologia pela Faculdade Oswaldo Cruz – SP, em Saúde Estética pela Biocursos e em Gestão de Empresas pela Fundação Dom Cabral, Mestre em Engenharia de Produção pela UFAM. E CEO da Pharmapele Manaus.

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