Neste Dia das Mães, muitas mulheres receberão flores, mensagens, presentes e homenagens. Serão lembradas pelo amor que oferecem, pela dedicação diária e pela capacidade de cuidar dos filhos nos detalhes que quase sempre passam despercebidos. Mas, entre tantas declarações, talvez uma pergunta simples seja uma das mais importantes: como você está? A maternidade não é apenas uma experiência afetiva; é também uma vivência humana, relacional e atravessada por exigências emocionais, sociais e históricas (Grisci, 1995).

Mães costumam ser vistas pelo que fazem: organizam a rotina, acompanham a escola, percebem mudanças no comportamento dos filhos, cuidam da saúde, das emoções e, muitas vezes, sustentam silenciosamente o funcionamento da família. No entanto, nem sempre são vistas pelo que sentem. Quando a sociedade transforma a boa mãe em alguém que deve dar conta de tudo, corre o risco de naturalizar a culpa, a exaustão e o sofrimento silencioso (Grisci, 1995).

Na Psicologia, Bowlby destacou que os cuidados maternos favorecem a saúde mental infantil quando oferecem proteção, previsibilidade e segurança (Bowlby, 1952). Ainsworth et al. (1978) ampliaram essa compreensão ao mostrar que o vínculo seguro se constrói pela sensibilidade da figura cuidadora às necessidades da criança. Mas esse vínculo não exige perfeição. Winnicott nos lembra da “mãe suficientemente boa”: aquela que não acerta sempre, mas oferece cuidado, afeto e possibilidade de reparação (Winnicott, 1953/2000). A criança não precisa de uma mãe sem falhas, mas de uma relação suficientemente afetiva, estável e amparada.

A função materna também não se limita à biologia. Ela pode promover saúde mental quando oferece afeto, segurança, cuidado e vínculo, favorecendo o desenvolvimento emocional da criança (Cavalcante; Jorge, 2008). Ao mesmo tempo, a saúde mental materna influencia a qualidade dessa relação: sintomas depressivos, ansiosos e a exaustão provocada pelas muitas demandas diárias podem interferir nas interações mãe-filho, afetando a escuta, a responsividade e a resposta emocional às necessidades da criança (Alvarenga et al., 2018).

Uma pesquisa brasileira de base populacional publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva reforça que a relação mãe-filho não depende apenas do esforço individual da mãe: estresse materno, depressão e condições sociais podem prejudicar esse vínculo (Cavalcante et al., 2017). Por isso, quando uma mãe não está bem, a pergunta não deve ser “por que ela não dá conta?”, mas “quem tem cuidado dela?”. Neste Dia das Mães, o presente mais significativo pode estar em atitudes concretas: dividir responsabilidades, permitir descanso, escutar sem julgamento, perguntar o que ela precisa e reconhecer que maternidade não deve ser vivida como solidão. Cuidar de si também é cuidar dos filhos, pois descanso, rede de apoio e ajuda profissional ampliam os recursos emocionais da mãe para acolher, responder e se vincular (Alvarenga et al., 2018; Cavalcante et al., 2017).

Neste Dia das Mães, reconhecer a força das mães também pode significar abrir espaço para uma pergunta simples e necessária: “como você está?” E, se a resposta vier acompanhada de tristeza persistente, ansiedade intensa, irritabilidade frequente, culpa excessiva, isolamento ou esgotamento, que isso não seja tratado como exagero ou fraqueza. São sinais que merecem acolhimento e, quando necessário, avaliação de um profissional qualificado.

Porque homenagear uma mãe também é cuidar dela. E, no amor de mãe, também precisa caber a própria mãe.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Referências-base

Ainsworth, M. D. S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of attachment: A psychological study of the Strange Situation.

Alvarenga, P., Paixão, C., Soares, Z. F., & Silva, A. C. S. (2018). Impacto da saúde mental materna na interação mãe-bebê e seus efeitos sobre o desenvolvimento infantil.

Bowlby, J. (1952). Maternal care and mental health.

Cavalcante, C. M., & Jorge, M. S. B. (2008). Mãe é a que cria: o significado de uma maternidade substituta.

Cavalcante, M. C. V. et al. (2017). Relação mãe-filho e fatores associados: análise hierarquizada de base populacional em uma capital do Brasil — Estudo BRISA.

Grisci, C. L. I. (1995). Mulher-mãe.

Winnicott, D. W. (1953/2000). Objetos transicionais e fenômenos transicionais.

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