Neste 5 de junho, quando se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, uma pergunta se impõe ao Amazonas: quanto tempo ainda será necessário para transformar discursos sobre desenvolvimento sustentável em ações concretas capazes de gerar riqueza, renda e oportunidades para quem vive no interior da floresta?
A resposta pode estar em uma palavra cada vez mais presente nos debates econômicos globais: bioeconomia.
Mais do que uma tendência ambiental, a bioeconomia surge como a principal alternativa para conectar preservação florestal, inovação tecnológica e inclusão social numa região que abriga a maior biodiversidade do planeta, mas que ainda convive com alguns dos piores indicadores socioeconômicos do Brasil.
A discussão ganha força no momento em que o Governo do Amazonas lançou, durante a COP30, em Belém, em novembro de 2025, seu Plano de Bioeconomia, uma estratégia que pretende integrar a Zona Franca de Manaus, o Polo Industrial e os municípios do interior numa nova matriz econômica baseada nos ativos da sociobiodiversidade amazônica.
A proposta é ambiciosa. O plano prevê que, em dez anos, um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do Amazonas seja gerado pela bioeconomia, com potencial para criar 200 mil empregos e ampliar significativamente a participação dos bioprodutos na pauta exportadora do estado.
Grande desafio
Mas o desafio agora é transformar o plano em realidade. A economista amazonense Michele Aracaty, professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), dedica boa parte de sua obra mais recente — “A Amazônia do Futuro e o Futuro da Amazônia: a economia verde é a nossa bala de prata?” — justamente à discussão sobre os caminhos para uma nova economia amazônica.
No livro, Aracaty sustenta que o Amazonas precisa construir um modelo complementar à Zona Franca de Manaus, capaz de conectar a biodiversidade regional às cadeias produtivas modernas, agregando valor aos produtos da floresta e fortalecendo a economia dos municípios do interior.
A autora não propõe substituir a Zona Franca. Ao contrário. Sua tese é que o modelo industrial precisa ser integrado aos chamados bionegócios, utilizando matérias-primas regionais, conhecimento científico e inovação tecnológica para criar uma economia mais inclusiva e sustentável.
A própria obra destaca que o Amazonas reúne duas realidades aparentemente desconectadas: uma das maiores biodiversidades do planeta e um dos maiores polos industriais da América Latina. O desafio histórico é unir esses dois mundos.
A reflexão dialoga diretamente com o diagnóstico apresentado pelo jornal Valor Econômico ao analisar o Plano de Bioeconomia do Amazonas.

Tirar o interior da pobreza
Embora a Zona Franca tenha sido bem-sucedida na geração de empregos e arrecadação em Manaus, os benefícios não alcançaram com a mesma intensidade os demais 61 municípios do estado. O resultado é um interior que continua marcado pela pobreza, pela baixa renda e pela ausência de oportunidades econômicas permanentes.
É aí que a bioeconomia pode representar uma mudança estrutural. Produtos como açaí, castanha, guaraná, óleos essenciais, fibras naturais, pescado manejado, cosméticos da biodiversidade, turismo de natureza e biotecnologia têm potencial para formar novas cadeias produtivas capazes de gerar riqueza sem derrubar a floresta.
Michele Aracaty defende que a floresta deve deixar de ser vista apenas como objeto de exploração econômica e passar a ser compreendida como sujeito de um novo modelo de desenvolvimento regional.
Sua análise também alerta para um aspecto decisivo: bioeconomia não se faz apenas com floresta. É necessário investir em pesquisa, inovação, infraestrutura, conectividade, capacitação e governança pública.
O livro da economista enumera desafios históricos que continuam travando o desenvolvimento amazônico: deficiência logística, falta de infraestrutura, baixa agregação de valor aos produtos regionais, dificuldades de financiamento e ausência de integração entre ciência, mercado e comunidades tradicionais.
Implementação já
Por isso, o Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 pode representar mais do que uma data simbólica. Pode ser o momento de cobrar que o Plano de Bioeconomia anunciado com entusiasmo durante a COP30 avance para sua fase de implementação efetiva.
O Amazonas já possui o diagnóstico. Possui uma das maiores biodiversidades do planeta. Possui universidades, centros de pesquisa, empreendedores, comunidades tradicionais e um parque industrial consolidado. O que falta é acelerar a execução.
Como sustenta Michele Aracaty, a economia verde apresenta as condições para se tornar o modelo mais adequado à Amazônia por respeitar as especificidades regionais, preservar a cultura local e integrar conhecimento científico e saberes tradicionais em favor do desenvolvimento sustentável.
A floresta em pé já provou seu valor ambiental. Agora precisa demonstrar, em escala, seu valor econômico. E o tempo para isso começou a correr.
Leia mais:
