A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas divide a opinião pública nacional. De acordo com a nova pesquisa Datafolha, 59% dos brasileiros concordam, total ou parcialmente, com a medida da gestão de Donald Trump.
Em contrapartida, esse apoio esbarra fortemente no princípio de soberania nacional. O levantamento aponta que três em cada quatro entrevistados (74%) rejeitam veementemente qualquer possibilidade de as forças americanas agirem contra os criminosos em solo nacional sem a autorização expressa do governo brasileiro.
O cenário reflete o medo gerado pela violência organizada, um tema que desponta como central para as eleições de 2026. Afinal, a segurança pública e a criminalidade representam o maior problema do país para 16% da população, conforme dados do Datafolha de dezembro de 2025. O setor fica atrás apenas da saúde (20%) e supera a economia (11%). Ademais, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou em maio que 41% dos cidadãos vivem em áreas sob influência direta do crime organizado.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 17 e 18 de junho de 2026, em 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o levantamento está registrado no TSE sob o número BR-09956/2026. O interesse pelo tema é alto: 83% dos entrevistados sabem da nova classificação americana e 72% se consideram informados sobre o assunto.
População busca “grito de socorro” contra o crime
Especialistas analisam que o endosso à postura de Washington indica um esgotamento da sociedade com a falta de segurança pública.
“um grito de socorro de uma população que teve suas vidas sequestradas e rotinas alteradas pela atuação de facções”, contextualiza o sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Para Lima, o cidadão vê na medida um sinal de movimento.
“É o sentimento de que ao menos alguma coisa está sendo feita”, afirma ele ao comparar o caso com a avaliação positiva de 57% dos cariocas sobre a Operação Contenção, em que 122 pessoas foram mortas nos complexos da Penha e do Alemão.
Polarização política dita visões sobre Donald Trump e os EUA
Embora haja consenso sobre o medo do crime, a real intenção da Casa Branca divide o país em blocos polarizados. Metade dos entrevistados (50%) acredita que os Estados Unidos buscam combater as facções para “ajudar a população brasileira”. Por outro lado, 47% dos participantes afirmam que Washington usa a crise como “desculpa para mandar no Brasil”.
Essa percepção varia conforme a inclinação política dos entrevistados:
- Eleitores de direita: A confiança na cooperação norte-americana atinge 81% entre os simpatizantes do PL e chega a 77% nos eleitores de Flávio Bolsonaro.
- Eleitores de esquerda: A desconfiança de que o ato esconde um pretexto para ingerência externa sobe para 69% entre os apoiadores do PT e chega a 63% nos eleitores do presidente Lula.
Apesar dessas divergências ideológicas, a defesa do território unifica os lados. Consequentemente, a ampla maioria de 74% concorda que os EUA cometeriam um erro caso atacassem membros do PCC ou CV dentro das fronteiras brasileiras sem comunicar o governo federal.
O fator Flávio Bolsonaro no cenário internacional
Por fim, o Datafolha também mediu o impacto político doméstico da medida internacional. O levantamento mostra que 54% dos brasileiros avaliam que Flávio Bolsonaro, atual pré-candidato do PL à Presidência da República, influenciou diretamente a decisão do governo americano.
Entre os cidadãos que enxergam a participação do parlamentar no processo, 57% julgam que essa articulação trouxe consequências negativas para o Brasil. Em contrapartida, 37% dos entrevistados defendem que a atuação do político foi positiva para o país.
(*) Com informações da Folha de S.Paulo
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