Durante dezessete anos trabalhei ao lado de Belarmino Lins. Aprendi cedo que existiam duas espécies de políticos: os que acordavam pensando na próxima eleição. E Belão que, muitas vezes, acordava pensando em contar uma boa piada.

Nunca conheci alguém capaz de atravessar uma crise política com a mesma serenidade de quem atravessa a sala para servir um café. Enquanto alguns inflamavam discursos, ele desinflava os ânimos. Enquanto uns levantavam a voz, ele levantava uma história engraçada. E, curiosamente, quase sempre funcionava. O jogo dava certo.

Na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, onde permaneceu nada menos que trinta e dois anos consecutivos, parecia conhecer cada corredor como quem conhece os cômodos da própria casa. Foi três vezes presidente do Poder, líder, articulador, conselheiro. Viu governos nascerem e terminarem, adversários virarem aliados e aliados virarem adversários. Mas nunca perdeu a capacidade de conversar. E de rir. Provavelmente porque levasse a política a sério demais.

Quem o via distribuindo bom humor pelos corredores talvez não imaginasse que, por trás daquele sorriso fácil, havia um administrador de visão rara. Belão compreendia que as instituições também precisam de afeto, mas precisam, sobretudo, de estrutura. 

Foi com esse espírito que ajudou a erguer o Complexo Administrativo Deputado Federal José Lins de Albuquerque, reunindo a sede da Assembleia Legislativa, Centro Médico, Centro de Fisioterapia, Centro Técnico, Escola do Legislativo, Centro Esportivo, academia, auditórios e a acolhedora Praça do Povo. 

Não era apenas um conjunto de estruturas. Era um Parlamento olhando para dentro, cuidando das pessoas para servir ainda melhor à sociedade.

Como um trabalhador comum

A maneira de legislar de Belão seguia a mesma lógica: fazer política para melhorar a vida de quem estava do outro lado da mesa. Em 2005, liderou a Emenda Constitucional nº 05, que reduziu o recesso parlamentar de noventa para quarenta e cinco dias. 

A medida aproximava os deputados da realidade do trabalhador brasileiro e, ao anunciá-la, Belão não perdeu a oportunidade de temperar seriedade com bom humor. Disse à imprensa: “Estabelecemos a equidade, já que deputado nenhum é maior que um trabalhador comum, cujo período de férias é de trinta dias. Acabamos com a preguiça e passamos a trabalhar mais.” Era impossível dissociar o legislador do piadista.

Também deixou sua marca em áreas onde a política toca a vida de maneira mais delicada. Foi autor da Lei nº 3.148, de 2007, que instituiu a Política Estadual de Prevenção e Atendimento à Gravidez na Adolescência, iniciativa de tamanha relevância que recebeu reconhecimento do Senado da República. 

E, olhando para os desafios do interior do Amazonas, Belão apresentou o projeto que autorizou o Governo do Estado, por intermédio da Polícia Militar, a promover cursos de capacitação, formação e treinamento para Guardas Municipais, fortalecendo a segurança pública de inúmeros municípios. Eram obras legislativas diferentes, mas nascidas da mesma convicção: política existe para cuidar de gente.

Ser ou não ser “padre”

Um dia, entre uma conversa e outra, fiz uma pergunta que julgava simples: “Deputado, se o senhor não tivesse sido político, teria sido o quê?  Ele nem pensou duas vezes e respondeu: “Padre”. Confesso que fiquei surpreso. Depois, caí na gargalhada.

Belarmino explicou que, quando menino, em Fonte Boa, alimentava esse sonho. Filho de família católica, desejava servir à Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe. Queria ser um padre amazonense numa época em que a maioria dos sacerdotes que conhecia vinha de outros países.

Nunca esqueci aquela resposta. Pensando bem, creio que ele nunca deixou de ser padre. Não daqueles que celebram missas. Mas daqueles que passam a vida ouvindo gente. Recebendo prefeitos aflitos. Consolando amigos derrotados. Apartando brigas. Distribuindo esperança. Pregando paciência. E acreditando que conversar ainda é melhor do que gritar.

É claro que havia uma diferença. Padres costumam usar batina. Belão preferia um paletó muito bem alinhado. E, no lugar do sermão, aplicava uma piada.

Quem trabalhou com ele sabe que existia sempre uma história pronta, um comentário espirituoso ou uma tirada inesperada capaz de desmontar o clima mais pesado da sessão. Era quase um ministério. Só que parlamentar.

Dançarino do Beiradão 

Mas havia um detalhe que nenhuma biografia oficial registra. Terminadas as reuniões, os discursos e as solenidades, bastava começar um baile no interior para surgir outro Belão. O deputado dava lugar ao dançarino. Bastavam os primeiros acordes do beiradão para ele tomar o salão como se estivesse em campanha… de dança.

Enquanto muita gente já procurava uma cadeira depois da meia-noite, Belão seguia firme, rodopiando até duas, três horas da madrugada, sem perder o compasso nem o bom humor. Não por acaso ganhou um título que nenhum diploma político conferiu: “Pé de Valsa do Beiradão”. Se existisse comissão parlamentar de dança, teria sido presidente dela também.

A política costuma fabricar personagens barulhentos. Belarmino escolheu outro caminho. Construiu uma carreira baseada em algo que anda em falta nos dias de hoje: ouvir antes de responder. Essa é uma das razões de jamais ter perdido uma eleição.

As pessoas costumam votar em quem fala bonito. Mas permanecem ao lado de quem sabe escutar.

Hoje, olhando para trás, penso que Deus apenas mudou o endereço da vocação daquele menino de Fonte Boa. Em vez da paróquia, deu-lhe a Assembleia Legislativa, com todas as suas provações. No lugar do altar, uma tribuna. Em vez do sino da igreja, a campainha do plenário. E, no lugar dos fiéis, milhares de amazonenses espalhados pelos municípios do interior.

Baile de Santo

A missão continuou sendo praticamente a mesma. Servir. Só mudou o uniforme. E, conhecendo Belão como conheci, tenho quase certeza de que São Pedro, quando um dia o encontrar, vai abrir um sorriso e dizer: “Demorou, padre”. Belão certamente responderá com alguma piada. Ou perguntará se no Céu também tem baile de santo.

Se Pedroca sinalizar que existe, desconfio que o velho “Pé de Valsa do Beiradão” vai querer organizar o primeiro concurso de dança celestial, deixando pasma até a sisuda Madre Teresa de Calcutá.

Nesta vida que Deus me deu, vi muita gente fazer carreira na política. Vi também gente fazendo da política uma forma bem-humorada de cuidar das pessoas. Belarmino Lins pertence, sem nenhuma dúvida, a essa segunda categoria.

E sabem de uma coisa? Deus não fez de Belão um padre. Fez dele um político que jamais esqueceu a missão de ouvir, acolher, conciliar e realizar.

É por isso que, alguns anos passados, muita gente ainda se lembre tanto das leis que ele ajudou a construir quanto do sorriso que distribuía pelos corredores da Assembleia. 

É que há homens públicos que deixam monumentos. Outros deixam discursos. Belão deixou ambos, mas preferiu ser lembrado pelo que nenhum decreto é capaz de registrar: a elegância no trato, a amizade sincera, o espírito público, a alegria contagiante e uma boa piada sempre pronta na ponta da língua. E isso, convenhamos, também é uma bela forma de evangelizar. Uma combinação rara entre competência, humanidade e bom humor.  Ave, Belão!

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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