“Não tenho nada para fazer.” Nas férias escolares, essa frase costuma atravessar a casa como um pedido de socorro. Em poucos minutos, pode vir acompanhada de reclamações, irritação, brigas entre irmãos e pedidos insistentes por celular, televisão ou videogame. Para muitos pais, a reação imediata é tentar resolver: oferecer uma tela, inventar uma atividade, procurar um passeio ou preencher o silêncio antes que ele vire conflito.
Mas será que toda criança entediada precisa ser entretida?
Em uma época em que vídeos começam sozinhos, jogos oferecem recompensas rápidas e desenhos estão disponíveis a qualquer hora, o tédio passou a ser visto quase como um problema. No entanto, nem todo vazio é negativo. Na infância, alguns momentos sem programação podem funcionar como espaço para imaginação, criatividade, autonomia e construção de recursos emocionais.
O tédio pode ser desconfortável, especialmente porque a criança ainda está aprendendo a lidar com espera, frustração, limites e organização do próprio tempo. Quando não há repertório de brincadeiras, espaço seguro ou apoio mínimo dos adultos, ele pode aparecer como birra, impaciência e dependência das telas. Mas, quando existe um ambiente possível e algum ponto de partida, esse mesmo tédio pode se transformar em brincadeira, invenção e solução de problemas.
Um estudo de Barker e colaboradores, publicado em 2014, observou que crianças que passavam mais tempo em atividades menos estruturadas apresentavam melhor funcionamento executivo autodirigido. Em outras palavras, quando a criança tem algum tempo para escolher o que fazer, iniciar uma atividade, mudar de estratégia e sustentar uma brincadeira sem comando constante do adulto, ela exercita habilidades importantes para a vida.
Isso não significa deixar a criança sozinha com o próprio desconforto. O papel dos pais não é abandonar, mas também não precisa ser o de animador de férias em tempo integral. Muitas vezes, basta oferecer um ponto de partida: “você prefere desenhar ou montar alguma coisa?”, “quer me ajudar na cozinha?”, “vamos separar brinquedos para inventar uma história?”, “que tal ligar para os primos ou conversar com os avós?”. Pequenas portas abertas podem ser suficientes para que a criança comece.
Nas férias, muitos adultos carregam a culpa de não conseguir oferecer viagens, colônia de férias ou atividades criativas todos os dias. Em Manaus, essa realidade ganha contornos próprios: o calor, a rotina de trabalho, as limitações de segurança e a falta de rede de apoio reduzem as possibilidades de lazer. Ainda assim, uma infância saudável não depende de entretenimento contínuo. Depende também de pausas, convivência, brincadeiras simples e tempo para imaginar.
É importante, porém, diferenciar tédio de sofrimento. Uma criança entediada pode reclamar, mas costuma se envolver quando recebe algum estímulo inicial. Já quando há tristeza persistente, isolamento, apatia, irritabilidade intensa ou perda de interesse por atividades antes prazerosas, é preciso olhar com mais cuidado e buscar orientação profissional.
O desafio das férias não é eliminar todo tédio, mas ensinar a criança a atravessá-lo. Quando os pais resistem à tentação de oferecer uma tela a cada reclamação e ajudam o filho a encontrar possibilidades no próprio ambiente, ensinam algo precioso: nem todo vazio precisa ser preenchido imediatamente.
Às vezes, é justamente no intervalo entre “não tenho nada para fazer” e “tive uma ideia” que a infância acontece.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
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