Os amazonenses precisam prestar muita atenção ao alerta feito pelo jornalista Marcelo Godoy, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo.

O que está acontecendo nas fronteiras da Amazônia deixou de ser apenas uma questão militar ou policial. Tornou-se um problema que ameaça diretamente a segurança, a economia e a estabilidade de toda a nossa região.

A revelação do chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, é extremamente preocupante.

Segundo o general, a principal ameaça enfrentada atualmente pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) já não está relacionada à tensão com a Venezuela, mas sim à ação de grupos criminosos colombianos formados por dissidentes das antigas Farc, os chamados Grupos Armados Organizados Residuais (GAOR).

O mais grave é que esses grupos não atuam apenas como guerrilhas. Eles se transformaram em poderosas organizações ligadas ao narcotráfico internacional, utilizando os rios amazônicos para transportar drogas destinadas aos mercados europeu e africano.

A rota do Solimões, que corta o Amazonas, tornou-se um dos principais corredores desse comércio criminoso.

Quando um general do Exército afirma publicamente que soldados brasileiros estão trocando tiros semanalmente com integrantes desses grupos na fronteira, estamos diante de uma realidade que exige atenção imediata.

Não se trata de uma hipótese ou de uma ameaça distante. Trata-se de um conflito em andamento, que ocorre dentro da área de responsabilidade estratégica da Amazônia brasileira.

O Amazonas ocupa posição central nesse cenário. Nossa extensa fronteira, a imensa malha hidrográfica e as dificuldades naturais de fiscalização tornam a região bastante vulnerável à atuação do crime organizado transnacional.

O tráfico de drogas não chega sozinho. Ele costuma vir acompanhado de lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de armas, exploração ilegal de recursos naturais e fortalecimento de facções criminosas.

Os números apresentados pelo Exército demonstram a dimensão do problema. Somente em 2025, as operações militares causaram prejuízo estimado em R$ 600 milhões ao crime organizado.

Em uma única ação, foi apreendida uma tonelada de skunk na fronteira com a Colômbia. São cifras e volumes que revelam uma estrutura criminosa altamente organizada e com grande capacidade financeira.

O alerta de Marcelo Godoy também chama a atenção para outro aspecto importante: enquanto parte do debate político nacional se perde em disputas ideológicas e discussões superficiais, o crime organizado continua avançando, infiltrando-se em territórios, atividades econômicas e instituições.

A Amazônia não pode ser vista só como patrimônio ambiental ou fronteira geográfica. Ela é uma questão de soberania nacional. Defender a floresta significa também defender suas cidades, seus rios, suas comunidades e suas fronteiras.
O alerta está dado. Ignorá-lo seria um erro grave. O Amazonas precisa de mais presença do Estado, mais investimentos em inteligência, mais estrutura para as forças de segurança e maior integração entre os órgãos responsáveis pelo combate ao crime organizado.

A ameaça já não está distante. Ela bate à nossa porta. E quanto mais cedo compreendermos a sua dimensão, maiores serão as chances de enfrentá-la com eficácia. E é preciso agir logo.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

LEIA MAIS

O Amazonas na era digital