Ex-integrantes dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido publicaram nas redes sociais um vídeo em que declaram voto no senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. Na gravação, eles criticam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apresentam argumentos sobre corrupção, segurança pública, custo de vida, cultura e direitos individuais.
Entre os participantes estão:
- Ana Luísa Faria, ex-sinhazinha da Fazenda do Boi Garantido;
- Jeane Benolieu, ex-sinhazinha da Fazenda, cunhã-poranga e porta-estandarte do Boi Caprichoso;
- Tatiane Barros, ex-porta-estandarte e cunhã-poranga do Boi Garantido;
- Waldir Santana, que atuou por 30 anos como pajé do Boi Caprichoso;
- Raissa Barros, ex-porta-estandarte do Boi Garantido;
- Karyne Medeiros, ex-sinhazinha da Fazenda e porta-estandarte do Boi Caprichoso.
As falas misturam opiniões políticas com afirmações sobre temas que podem ser comparados com dados públicos. A seguir, veja o que os participantes disseram e o contexto de cada declaração.
Presos, segurança pública e fraude no INSS
Jeane Benolieu relaciona sua decisão de voto à segurança pública e aos descontos indevidos em benefícios previdenciários.
“Eu fui sinhazinha, cunhã-poranga e porta-estandarte do Boi Caprichoso e eu não voto no Lula. Porque ele é o preferido dos presídios. Tem o voto de quem roubou o seu celular e os idosos do INSS”, declarou.
No entanto, a afirmação de que Lula é o candidato preferido nos presídios não vem acompanhada de pesquisa ou dado eleitoral que a comprove. No Brasil, presos provisórios podem votar, pois a Justiça ainda não suspendeu seus direitos políticos por condenação criminal definitiva. Já pessoas com condenação criminal transitada em julgado ficam impedidas de votar enquanto durarem os efeitos da condenação.
Além disso, a Polícia Federal investiga descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A existência dessas fraudes, porém, não comprova a afirmação sobre a preferência eleitoral de pessoas presas.
Preço dos alimentos e custo de vida
Jeane também critica os preços nos supermercados e a promessa de acesso à picanha.
“Eu tô fora do Lula porque ele prometeu picanha e entregou o supermercado mais caro. E falou: se tiver caro, não compre. E o povão passando necessidade”, afirmou.
Para analisar essa declaração, é importante observar os dados da inflação. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou alta de 1,65% na alimentação no domicílio em maio de 2026. No mesmo mês, a inflação oficial ficou em 0,58%.
Os números confirmam que os preços subiram naquele período. Entretanto, eles não explicam sozinhos o comportamento do custo de vida durante todo o governo. Além disso, inflação menor não significa necessariamente produtos mais baratos: os preços ainda podem subir, mas em ritmo menor.
Os dados estão disponíveis na divulgação do IPCA de maio pelo IBGE.
Lei Rouanet e financiamento da cultura
Waldir Santana critica o uso da Lei Rouanet por artistas consagrados e defende que o mecanismo fortaleça os festivais e as manifestações culturais.
“A Lei Rouanet está sendo usada como cabo eleitoral por artistas já consagrados, onde, na verdade, deveria fortalecer os nossos festivais e manifestações culturais”, declarou.
Entretanto, o vídeo não apresenta exemplos ou provas de uso eleitoral da lei. O mecanismo funciona por meio de incentivo fiscal: após a aprovação de um projeto cultural, seus responsáveis podem captar recursos de empresas e pessoas físicas, conforme as regras previstas na legislação.
Além disso, a Lei Rouanet contempla diferentes iniciativas culturais, incluindo festivais. A aprovação de um projeto, contudo, não significa que o responsável tenha captado todo o valor autorizado nem que o governo tenha repassado diretamente esse dinheiro ao artista.
As regras podem ser consultadas na página oficial da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura.
Orientação sexual, igualdade e liberdade de expressão
Waldir Santana também relaciona sua posição política à orientação sexual.
“Tô fora do Lula por eu ser gay e quero ser reconhecido pelo que eu construo e não pelas minhas intimidades”, afirmou.
A declaração expressa a opinião pessoal do ex-pajé. No entanto, ele não cita no vídeo uma medida específica do governo que condicione o reconhecimento profissional à exposição da vida privada.
Já Tatiane Barros afirma que Lula e o PT provocaram divisões na sociedade.
“Ele e seu partido dividiram as pessoas. Todos deveriam ser iguais, mas agora é uma grande confusão. É preto contra branco, homossexual contra hétero, mulher contra homem e por aí vai”, disse.
A fala não apresenta dados ou exemplos que demonstrem que políticas voltadas à igualdade tenham provocado os conflitos mencionados. Por outro lado, a Constituição Federal estabelece a igualdade perante a lei e protege direitos fundamentais. Para avaliar a crítica, é necessário identificar quais medidas a participante questiona e quais efeitos elas teriam produzido.
Raissa Barros, por sua vez, cita a liberdade de expressão como motivo para rejeitar Lula.
“A minha liberdade de expressão é a base da democracia e hoje ela está em jogo. Por isso, eu tô fora”, declarou.
Embora a liberdade de expressão seja um direito garantido pela Constituição, a afirmação de que ela está ameaçada exige exemplos concretos, como medidas, decisões ou episódios que sustentem essa avaliação. A declaração, isoladamente, não apresenta esses elementos.
O texto constitucional está disponível no Portal da Legislação.
Corrupção e defesa da vida
Ana Luísa Faria afirma que não votará em Lula por causa da corrupção que atribui ao PT. Além disso, ela critica a atuação do Judiciário.
“Fui sinhazinha do Boi Garantido do Festival Folclórico de Parintins e não voto no Lula. A corrupção desenfreada do PT não deixa o nosso país crescer e, por isso, eu tô fora”, afirmou.
Em outro trecho, ela criticou o Judiciário e disse não querer “um sistema judiciário que proteja o governo às custas do povo de bem”.
As declarações são críticas políticas amplas, mas não apontam casos específicos, decisões judiciais ou provas que confirmem as acusações nos termos apresentados. Para avaliar alegações de corrupção, é necessário distinguir investigações, denúncias e condenações, além de identificar os envolvidos em cada caso.
Por fim, Karyne Medeiros cita a defesa da vida e a proteção das crianças como motivos para não votar em Lula.
“Defendo a vida desde a concepção e a proteção das nossas crianças. Por isso, eu tô fora”, declarou.
A fala expressa uma posição moral e política. Entretanto, a participante não indica qual medida do governo seria contrária aos princípios que menciona. Sem essa referência, não é possível verificar objetivamente a afirmação.
O vídeo reúne declarações de apoio a Flávio Bolsonaro e críticas ao governo Lula. Portanto, é importante distinguir opiniões pessoais de afirmações sobre segurança pública, economia, corrupção e financiamento cultural que exigem dados, legislação e evidências concretas.

