A declaração do vereador e deputado federal eleito Alexandre Salazar (PL), segundo a qual “o Amazonas vai parar” caso ele e Kidson Maia, conhecido como “Doido”, sejam presos, revela uma preocupante combinação de soberba, desmedida vaidade e desconexão com a realidade.

É difícil não enxergar nessa afirmação a pretensão de alguém que se considera maior do que as instituições, mais importante do que a própria sociedade e capaz de transformar uma eventual decisão judicial em acontecimento que paralisaria um Estado inteiro. É risível isso, pois Manaus e o Amazonas não são propriedade de nenhum político.

A reação nas redes sociais foi marcada por ironias e críticas. Internautas lembraram que o Estado enfrentou a pandemia, apagões e crises no abastecimento de água sem parar por completo. Os internautas se disseram simplesmente boquiabertos com a piada de que a eventual prisão de um parlamentar pudesse provocar uma comoção dessa magnitude.

Sem dúvida houve mais que exagero e boçalidade na manifestação de Salazar. Em vez de transmitir serenidade, responsabilidade e respeito à Justiça, a fala do parlamentar alimentou a impressão de que ele se julga uma espécie de semideus, cuja sorte pessoal deveria mobilizar toda a população.

A política exige humildade, preparo intelectual, compromisso público e, sobretudo, consciência de que o mandato não confere imunidade moral nem transforma seu titular em figura acima dos demais cidadãos.

O voto popular é uma delegação de confiança, não uma autorização para cultivar a arrogância.

Salazar está prestes a assumir uma responsabilidade muito maior: representar o Amazonas na Câmara dos Deputados. Brasília não é palco para bravatas, intimidações ou declarações destinadas a produzir espanto nas redes sociais. É um espaço que exige capacidade de argumentação, conhecimento dos problemas nacionais e disposição para construir soluções.

Sem demonstrar conteúdo político e intelectual à altura dessa missão, o deputado eleito corre o risco de se tornar uma figura meramente folclórica, um personagem de repercussão episódica, mas de contribuição parlamentar insignificante.

A comparação com Tiririca, que conquistou notoriedade nacional por sua imagem irreverente, serve aqui como alerta: popularidade e espetáculo não substituem competência e trabalho legislativo.

O Amazonas precisa de representantes que defendam seus interesses na saúde, na educação, na segurança, na infraestrutura e no desenvolvimento econômico. Não precisa de parlamentares que, narcisistas, confundam a própria imagem com o destino de milhões de pessoas.

É necessário, ainda, distinguir a crítica política do julgamento jurídico. É certo que acusações, pedidos de prisão e medidas protetivas devem ser examinados pelas autoridades competentes, com respeito ao devido processo legal. Ninguém deve ser considerado culpado apenas por causa de uma controvérsia pública. Mas isso não impede que se critique, com firmeza, a arrogância de uma declaração e a postura que ela revela.

Se Salazar deseja representar dignamente o Amazonas, terá de compreender que o mandato não é um pedestal para alimentar o ego. É uma obrigação de servir.

O Amazonas não vai parar por causa de um político qualquer, seja ele um idiota ou não. E a Câmara Federal não pode se transformar em extensão de um palanque de bravatas.

O povo amazonense merece muito mais do que um representante interessado em parecer indispensável: merece alguém que, de fato, seja útil ao Estado.

Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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