O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quinta-feira (22) a criação do chamado Conselho da Paz, órgão que o governo americano pretende utilizar para suplantar as Nações Unidas — intenção que o republicano nega.

Inicialmente concebido como instrumento para governar a Faixa de Gaza no contexto do cessar-fogo na região, o conselho passou a assumir contornos mais amplos. A mudança gerou preocupação em países como França, Canadá, Reino Unido e Brasil.

“Este conselho tem a chance de ser um dos conselhos mais importantes já criados. É minha grande honra servir como presidente, fiquei muito honrado quando me pediram isso”, disse Trump, embora seu governo tenha sido o idealizador e fundador do grupo.

Anúncio ocorre durante fórum em Davos

A cerimônia de assinatura ocorreu às margens do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça — evento já ofuscado pela recente investida tarifária e diplomática de Trump, atualmente suspensa, envolvendo a tentativa de anexação da Groenlândia.

O anúncio contou com a presença de líderes que já aceitaram participar do conselho, entre eles o presidente da Argentina, Javier Milei, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.

Durante seu discurso, Trump voltou a criticar a ONU e afirmou que a iniciativa sobre Gaza pode ser “algo único para o mundo”, indicando que o grupo não deve se limitar à discussão do território palestino.

“Eu sempre disse que as Nações Unidas têm um potencial tremendo, mas não o usou”, afirmou. “Eu acho que a combinação do Conselho da Paz, com o tipo de gente que temos aqui, junto com a ONU, pode ser algo muito único para o mundo. Isso é para o mundo, não é para os EUA.”

Composição do grupo e poder concentrado

Em tom informal, Trump comentou a relação com os líderes presentes no evento.

“É, todos são meus amigos. Alguns… deixe-me ver, alguns que gosto, alguns que não gosto. Não, na verdade, desse grupo eu gosto de cada um deles, dá para acreditar? Às vezes tem dois ou três que não suporto, mas gosto de cada um deles.”

Além dos países já citados, o conselho inclui Israel, Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Turquia e Vietnã. Ainda não está definido quais serão membros permanentes, já que Trump pretende cobrar US$ 1 bilhão de quem desejar uma cadeira fixa.

A estrutura da organização segue indefinida. O conselho — cujo logotipo exibe o planeta Terra com os Estados Unidos no centro — será presidido por Trump, que concentrará poder sobre decisões-chave, como renovação de mandatos, convocação de reuniões e definição do comitê executivo responsável pela reconstrução do território palestino. O presidente também terá voto de desempate em caso de impasse.

Reação internacional e posição do Brasil

Países europeus ainda analisam o convite. França, Reino Unido e Noruega já recusaram integrar o órgão, em meio às tensões causadas pelas recentes investidas de Trump sobre a Groenlândia, território pertencente à Dinamarca.

Durante a cerimônia, Trump voltou a exaltar ações de seu governo, citando supostos feitos diplomáticos, operações militares e medidas econômicas, como conflitos que teria mediado e o fechamento da fronteira com o México. O republicano também elogiou a operação de ataque a Caracas que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro.

Trump ainda renovou críticas a aliados da Otan, aliança militar liderada pelos Estados Unidos e atualmente no centro de atritos com parceiros europeus.

O Brasil segue avaliando se participará do conselho. Desde que o presidente Lula recebeu o convite, a diplomacia brasileira tem dialogado com outros países convidados. Embora a tradição diplomática do país privilegie o equilíbrio e a participação em fóruns multilaterais, o governo brasileiro vê a iniciativa americana como uma possível tentativa de esvaziar a ONU como espaço legítimo de debate global.

Lula conversou por telefone nesta quarta-feira com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que já aceitou integrar o grupo. Segundo o Planalto, os líderes trataram da situação em Gaza, mas não abordaram o Conselho da Paz criado por Trump.

(*) Com informações da Folha de S.Paulo

Leia mais: Lula diz que Trump pretende ‘governar o mundo’ por rede social