Enquanto o Brasil envelhece em ritmo acelerado, o Amazonas ainda preserva o retrato de uma população predominantemente jovem. Entre 2010 e 2022, a idade mediana do brasileiro saltou de 29 para 35 anos. No Amazonas, ela é de 27 anos, segundo o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pirâmide etária confirma o contraste: 27,3% da população amazonense tem até 14 anos e apenas 5,9% possui 65 anos ou mais – a segunda menor proporção de idosos do país, atrás apenas de Roraima. Enquanto o índice de envelhecimento nacional chegou a 55,2 (55 idosos para cada 100 crianças), no Amazonas ele é de 21,7.

O dado, à primeira vista, reforça a ideia de um estado jovem. Mas o bônus demográfico, período em que a maioria da população está em idade economicamente ativa, não é permanente.

“As mudanças demográficas revelam um processo de envelhecimento em escala mundial, nacional e também no Amazonas. Embora o estado tenha menor proporção de idosos, isso não significa que seja jovem em sentido absoluto”, explicou o doutor em Geografia Humana Thiago Oliveira Neto, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFAM.

Segundo ele, o perfil mais jovem está ligado a fatores históricos e econômicos. “Há uma concentração de população jovem associada aos movimentos migratórios vinculados ao polo industrial de Manaus, ao avanço de atividades como mineração e agropecuária no Sul do Estado, além de fluxos migratórios internos e interestaduais. Mas já observamos crescimento progressivo da população idosa, tanto nas cidades quanto nas áreas rurais”, disse.

Juventude numerosa, oportunidades desiguais

Foto: Nathalia Bentes

Se, por um lado, o Amazonas concentra uma das maiores proporções de crianças, adolescentes e jovens adultos do país, por outro, enfrenta dificuldades estruturais para transformar essa força demográfica em desenvolvimento.

Entre 2010 e 2022, a população estadual cresceu 13,12%, passando de 3,4 milhões para quase 4 milhões de habitantes, com forte concentração em Manaus. Em 2023, 41,8% da população da região Norte tinha menos de 24 anos.

Mas os indicadores sociais revelam fragilidades. Dados da PNAD Contínua Educação de 2024 apontam que cerca de 273 mil jovens de 15 a 29 anos no Amazonas não estudam nem trabalham – uma das maiores taxas de ociosidade juvenil do país.

No mercado formal, o Estado também figura entre os que possuem menor proporção de trabalhadores com carteira assinada, sinalizando dificuldade de inserção profissional e baixa estabilidade econômica.

Para a professora Nathalia Bentes, que atua no ensino infantil e na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o problema começa na base.

“A Lei de Diretrizes e Bases estabelece que a educação deve preparar para o exercício da cidadania e para o mercado de trabalho, mas existe um descompasso entre a lei e a realidade escolar”, afirmou. Segundo ela, o ensino ainda é excessivamente teórico. “Falta a práxis – a união entre teoria e ação. Além disso, há defasagem tecnológica. Muitas escolas enfrentam infraestrutura precária e metodologias que ignoram a cultura digital”, destacou.

O reflexo aparece nos indicadores. De acordo com dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a taxa de distorção idade-série chegou a 35,5% em 2024. “Essa defasagem está ligada à vulnerabilidade social, à necessidade de trabalhar cedo e à falta de assistência social. Sem políticas de aceleração e suporte socioemocional, a evasão tende a crescer”, diz Nathalia.

Para ela, preparar o futuro significa agir agora. “A escola precisa ser centro de oportunidades, integrar letramento digital, ensino técnico e combater a distorção idade-série. Isso impacta diretamente na qualidade de vida que esses jovens terão quando envelhecerem”, completou.

Na ponta dessa estatística estão histórias como a de Graziela Silva, estudante de Jornalismo, que busca o primeiro emprego na área.

“É desafiador. Mesmo estudando bastante, fico com a sensação de não estar pronta para o mercado”, relatou. No penúltimo período da faculdade, ela divide o tempo entre estudos, estágio e responsabilidades domésticas. “Quando vejo as exigências das vagas e o salário oferecido, é desanimador”, afirmou.

Diante do cenário, pensa em sair do estado e buscar novas oportunidades em outra federação do país. “Pretendo me mudar para o Paraná. Sinto que aqui as opções são mais escassas, tanto no mercado de trabalho quanto em pós-graduação”, finalizou.

O risco da chamada “evasão de cérebros” é um dos efeitos silenciosos da dificuldade de absorver a própria juventude.

Um envelhecimento que já começou

Apesar de ainda jovem em comparação ao restante do país, o Amazonas já dá sinais claros de transição demográfica. Entre 2012 e 2021, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 7% para 9,3% da população estadual – crescimento de 34,7% em números absolutos.

As projeções do IBGE indicam que, até 2060, o estado terá menos jovens e mais idosos. O envelhecimento, porém, não ocorre de forma homogênea.

“O processo acontecerá de maneira gradual e com ritmos diferenciados conforme as dinâmicas locais”, explicou Thiago Oliveira Neto. “Algumas atividades econômicas ainda atraem população jovem, como extração de madeira e ouro, mas há tendência crescente de concentração de idosos nas cidades, especialmente pela oferta de serviços de saúde”, ressaltou.

Municípios como Careiro da Várzea apresentam índice de envelhecimento mais elevado, são 28,7 idosos para grupo de 100 jovens na cidade. Enquanto Japurá registra um dos menores, com 8,9 idosos para cada grupo de 100 jovens, considerando pessoas acima de 65 anos.

Além disso, a expectativa de vida no Estado, de 75,2 anos em 2023, permanece abaixo da média nacional, colocando o Amazonas entre os estados com menor índice de longevidade do país.

Planejando o futuro

Para especialistas, o maior erro seria tratar juventude e envelhecimento como agendas separadas.

“O envelhecimento populacional já é realidade no Amazonas e exige planejamento territorial estruturado”, afirmou Thiago.

Entre as medidas necessárias, ele destaca a ampliação de serviços especializados de saúde, a capilarização de atendimentos ao longo das calhas dos rios, adequação de portos e embarcações para acessibilidade, modernização do transporte coletivo em Manaus com ônibus de piso baixo, padronização de calçadas e criação de espaços culturais e esportivos voltados à população idosa.

O desafio é duplo: oferecer oportunidades reais à juventude de hoje e, ao mesmo tempo, preparar infraestrutura, saúde e assistência social para a população que envelhecerá nas próximas décadas.

A demografia não é destino, mas é aviso. O Amazonas ainda vive sua janela de oportunidade. A forma como investirá em educação, emprego, mobilidade e saúde determinará se a juventude numerosa de hoje se transformará em desenvolvimento sustentável – ou em uma geração que envelhecerá sem o suporte necessário.

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