Você já reparou como pequenas contrariedades têm parecido grandes demais. Uma fila que anda devagar, uma mensagem sem resposta, um plano que muda, um erro simples no trabalho, um “não” inesperado.

O problema não é a vida ter ficado “mais difícil” de um dia para o outro. Muitas vezes, o que mudou foi a nossa tolerância ao desconforto. E ela é treinada, silenciosamente, pelo modo como vivemos.

Na psicologia, esse tema aparece em conceitos como intolerância à frustração e tolerância ao sofrimento emocional, que descrevem o quanto conseguimos suportar estados internos desagradáveis sem reagir no impulso, evitar, explodir ou desistir.

Em termos práticos, trata-se da capacidade de sustentar um “não gostei”, “não deu certo”, “vai demorar”, “não tenho controle” sem transformar isso em conflito, autoacusação ou fuga.

Estudos clássicos na abordagem racional-emotiva mostram que crenças de intolerância à frustração se associam a problemas de autocontrole e a respostas mais disfuncionais diante de obstáculos (Harrington, 2005).

É didático pensar assim: a frustração é inevitável, mas o modo como interpretamos e respondemos a ela é treinável.

O ponto é que o cotidiano moderno costuma treinar o oposto. A cultura do imediato, com recompensas rápidas, multitarefa e estímulo constante, reduz oportunidades de “exercitar” espera e persistência.

Quando o cérebro se acostuma a alternar estímulos o tempo todo, ele fica mais eficiente em trocar de foco, mas menos disponível para sustentar atenção, inibir impulsos e tolerar a sensação de desconforto que acompanha tarefas longas.

Um achado recente ilustra bem essa lógica: o uso agudo do smartphone foi associado a fadiga mental e pior desempenho em tarefas de vigilância e inibição, funções diretamente ligadas ao autocontrole (Jacquet et al., 2023). Não é moralismo. É funcionamento cognitivo: quanto mais interrupção e gratificação imediata, menos treino de permanência.

A frustração também cresce quando a mente tem dificuldade de lidar com o indefinido. A literatura sobre intolerância à incerteza descreve exatamente esse incômodo com o “não sei”, “ainda não”, “não depende só de mim”.

Trabalhos recentes reforçam que maior intolerância à incerteza se relaciona a reatividade emocional mais intensa e maior desgaste subjetivo diante do desconhecido (Morriss et al., 2023).

Em outras palavras, quando a incerteza vira ameaça, qualquer atraso ou imprevisto pode ser sentido como provocação. A emoção sobe rápido e a resposta vem antes do pensamento.

A boa notícia é que tolerância à frustração não é traço fixo. É habilidade. E habilidade melhora com treino deliberado.

Estudos contemporâneos sobre tolerância ao sofrimento emocional mostram que pessoas com maior tolerância tendem a usar mais estratégias adaptativas de regulação emocional no estresse diário, e menos estratégias que pioram o problema no longo prazo (Larrazabal et al., 2022).

Isso significa que desenvolver tolerância não é “engolir” sentimentos. É aprender a atravessá-los com mais escolha, mais flexibilidade e menos dano.

5 práticas para treinar tolerância à frustração na vida real

  1. Regra dos 30 segundos: sentiu irritação, espere 30 segundos antes de responder. Nomeie a emoção e escolha o próximo passo.
  2. Treino de espera curto: uma vez por dia, espere de propósito sem “compensar” com tela. Um minuto já é treino.
  3. Troque exigência por preferência: em vez de “isso não pode acontecer”, use “eu preferia que fosse diferente, mas posso lidar”.
  4. Exposição leve ao imprevisto: aceite um pequeno “fora do controle” por dia sem tentar consertar na hora.
  5. Persistência de 10 minutos: quando der vontade de abandonar, fique mais 10. O objetivo é treinar permanência, não perfeição.

Quando o “mínimo” vira gatilho, vale perguntar: o meu dia está treinando urgência e controle, ou está treinando flexibilidade e tolerância. A resposta costuma mostrar, com muita clareza, por que a paciência encurtou e por onde ela pode ser reconstruída.

Ana Claudia

Leia mais: