A indústria instalada em Manaus já opera em um patamar que, por muito tempo, foi colocado em dúvida. Mas os desafios para sua consolidação ainda são relevantes.

No caso da Positivo Tecnologia, esse avanço aparece de forma concreta. A operação incorpora linhas SMT altamente automatizadas, sistemas de rastreabilidade e testes integrados que permitem acompanhar cada etapa da produção, de componentes a produtos finais, como notebooks, tablets e dispositivos de pagamento.

Como resume Edson Toffoli, vice-presidente de Operações da empresa, “a automação já é parte estruturante da operação, especialmente nas etapas de maior precisão e escala”.

Esse nível de maturidade ajuda a reposicionar o olhar sobre a indústria em Manaus. A premissa de que plantas no Brasil operam abaixo dos padrões globais perde força e começa a dar sinais claros de mudança. Em termos de processo, controle e qualidade, há alinhamento com o que se observa em operações internacionais de manufatura eletrônica.

Mas o avanço não é uniforme, e talvez esse seja o ponto mais relevante. A inteligência artificial (IA), por exemplo, já começa a ser incorporada, ainda em camadas de suporte. Atua na análise de dados, na identificação de desvios e na melhoria de processos. Ainda não é o centro da produção e, segundo o próprio Toffoli, há um caminho de amadurecimento: “a indústria ainda está entendendo onde a IA realmente entrega valor no chão de fábrica”.

Ao mesmo tempo, o movimento da empresa também aponta para uma discussão mais ampla sobre o futuro da indústria: a necessidade de ir além da manufatura e capturar maior valor na cadeia, especialmente em serviços e soluções tecnológicas.

Essa leitura dialoga diretamente com o momento do Polo Industrial de Manaus (PIM), que iniciou 2026 com faturamento de R$ 18,28 bilhões apenas em janeiro, mantendo a trajetória de crescimento após um 2025 recorde, que alcançou R$ 227,67 bilhões. Os números mostram consistência, mas também indicam uma transição.

Apesar da base produtiva estar consolidada, o ambiente externo ainda impõe limites. Logística, infraestrutura e formação de mão de obra especializada continuam sendo gargalos que afetam a velocidade dessa transformação.

E é justamente essa diferença, entre o que acontece dentro da indústria e o que existe ao redor dela,  que começa a definir o próximo ciclo.

Como observa Toffoli, “o potencial existe, o desafio agora é acelerar a convergência desses fatores”.

Zona Franca redireciona P&D para bioeconomia e abre novo caminho produtivo

A aprovação, em comissão da Câmara dos Deputados, da proposta que direciona parte dos recursos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Zona Franca de Manaus para projetos de bioeconomia traz um movimento que merece atenção.

Não se trata de criar incentivos, mas de reorganizar recursos que já existem, de modo a impulsionar o desenvolvimento da bioeconomia.

Hoje, parte das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM), especialmente aquelas enquadradas na Lei de Informática e em outros regimes específicos, já destina parcela obrigatória de seu faturamento para P&D. O que a proposta faz é redirecionar parte desses investimentos para cadeias produtivas ligadas à biodiversidade, de forma gradual e estruturada.

Se bem executada, a medida pode ajudar a transformar a bioeconomia em algo além de projetos isolados, aproximando-a da escala produtiva e da inserção real no mercado. Pode ser a construção de um novo modelo de negócios, mais conectado entre indústria, biodiversidade e desenvolvimento econômico da região. O passo foi dado!

A retomada da indústria naval pode inaugurar um novo ciclo para a Amazônia?

Embora tenha publicado na coluna Mais Negócios (26/1) sobre a participação do estaleiro Bertolini, no Amazonas, no pacote de R$ 2,8 bilhões anunciado pela Petrobras para a construção de 41 embarcações, o movimento do setor é bem maior.

O plano de retomada da indústria naval brasileira prevê investimentos estimados em R$ 42,5 bilhões até 2030, com R$ 10,5 bilhões oriundos do Fundo da Marinha Mercante e programas de renovação e ampliação de frota liderados pela Petrobras e pela Transpetro, os dados revelam uma reestruturação na política industrial, que está distribuindo capacidade produtiva entre diferentes regiões, de forma gradual, mas com sinais claros de descentralização.

Durante anos, a indústria naval brasileira foi marcada por ciclos instáveis e forte concentração geográfica. Agora, a retomada vem acompanhada de uma estratégia mais ampla: reconstruir cadeia produtiva, reativar estaleiros, gerar empregos especializados e recuperar competência técnica nacional.

E a Amazônia se posiciona como parte dessa nova estratégia ou segue como participação pontual? 

A guerra dos chips já começou e não é só sobre tecnologia

A Alibaba anunciou um novo chip de inteligência artificial que, mais do que um avanço tecnológico, evidencia um movimento cada vez mais estratégico, inserido na disputa entre China e Estados Unidos pelo controle da infraestrutura da inteligência artificial (IA).

Hoje, a cadeia global de tecnologia ainda é altamente concentrada. Empresas como a Nvidia dominam o fornecimento de semicondutores de alta performance, criando uma dependência que vai além do mercado e avança para o campo geopolítico. Ao investir em chips próprios, a Alibaba busca reduzir essa dependência e avançar em direção à autonomia tecnológica.

O avanço da IA  está cada vez mais ligado à capacidade de infraestrutura –processamento, dados, energia e integração industrial. E isso abre uma reflexão importante sobre o papel de regiões como o Polo Industrial de Manaus (PIM), que já consolidou sua relevância na manufatura.

O desafio, agora, é outro: como se inserir em cadeias tecnológicas mais avançadas, que não se limitam à produção, mas envolvem conhecimento, inovação e integração com novas indústrias.

A disputa por chips pode parecer distante da Amazônia.
Mas a disputa por posicionamento industrial, essa, não é.

RÁPIDAS & BOAS

A Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP) promove, na segunda-feira (30/03), às 19h, mais uma edição do webinar da série ‘Diálogos Amazônicos’, com foco em pesquisa, desenvolvimento e inovação na Amazônia. As inscrições estão disponíveis por meio do link (https://tinyurl.com/yxr8rasa).

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Na quarta-feira (1º/4), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Amazonas (Sebrae/AM) realiza o ‘Café com Negócios – Salão de Beleza e Estética’, encontro voltado a empresários e profissionais do segmento interessados em fortalecer a gestão e ampliar as oportunidades de crescimento no setor. O evento acontece das 8h às 12h, no SebraeLab, espaço de inovação localizado na sede da instituição, no Centro de Manaus.

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Estão abertas, até quinta-feira (2/4), as inscrições para a participação na 8ª edição do programa ‘Mulheres na Ciência e Inovação’, focado em impulsionar a carreira de pesquisadoras STEM brasileiras. O evento, que  é gratuito e  on-line, é uma iniciativa entre o British Council e conta com o patrocínio da Shell. As inscrições sendo disponíveis pelo link (https://tinyurl.com/3d6xjh24).

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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