Abril chega tingido de azul, com campanhas e mensagens de conscientização sobre o autismo. Isso importa. Informar ainda é necessário. Mas, em 2026, o debate mais avançado sobre o tema já não para aí. Ganha força a compreensão de que pessoas autistas não precisam apenas ser lembradas. Precisam ser respeitadas, compreendidas e incluídas de forma real.

Em outras palavras, já não basta conscientizar. O passo seguinte é a neuroinclusão. Isso significa construir escolas, serviços de saúde e relações sociais em que pessoas autistas possam viver com dignidade, acessibilidade e participação efetiva. Nessa direção, a perspectiva da neurodiversidade ajudou a deslocar o olhar deficitário para uma compreensão mais humana e complexa do autismo, sem negar os desafios, mas recusando reduzi-lo apenas a eles (Baron-Cohen, 2017).

Falar em pertencimento é ir além da presença física. É perguntar se a criança autista está realmente aprendendo na escola ou apenas ocupando uma carteira. É questionar se o adulto autista encontra condições de previsibilidade, comunicação clara e adaptação sensorial. Inclusão de verdade não se mede por matrícula ou foto institucional. Mede-se pela possibilidade concreta de participar de modo efetivo, com respeito às particularidades de cada pessoa.

No campo clínico e educacional, isso exige mais do que boa vontade. Exige intervenção qualificada, baseada em evidências e sensível às necessidades reais do desenvolvimento. Kasari, Freeman e Paparella (2006) mostraram que intervenções focadas em atenção compartilhada e brincadeira simbólica podem favorecer habilidades da comunicação social em crianças pequenas autistas. Apoio adequado faz diferença, mas precisa ser planejado e tecnicamente bem fundamentado.

Ao mesmo tempo, o pertencimento não depende apenas de ensinar habilidades à pessoa autista. Depende também da forma como a sociedade responde à diferença. Foi nessa direção que Damian Milton (2012) propôs o conceito de problema da dupla empatia. Em vez de entender a dificuldade relacional apenas como um déficit do autista, Milton sugere um desencontro recíproco entre modos distintos de perceber e interpretar o mundo. Essa perspectiva torna a discussão mais complexa e mais justa, porque desloca parte da atenção para o ambiente e para a qualidade da relação.

Durante muito tempo, a inclusão foi pensada como adaptação unilateral: o autista deveria se esforçar para caber no mundo. A neuroinclusão propõe algo mais ético e mais maduro. Propõe profissionais capacitados, famílias acolhidas, escolas orientadas e políticas públicas que saiam do papel.

Isso não significa romantizar o autismo. Há pessoas autistas que demandam suporte importante, e isso deve ser reconhecido com seriedade. Mas reconhecer necessidades de apoio é diferente de reduzir uma pessoa à sua limitação. O risco de uma sociedade pouco inclusiva é ampliar dificuldades que poderiam ser amenizadas por contextos mais preparados e práticas mais sensíveis.

Talvez este seja o verdadeiro convite do Abril Azul hoje. Não apenas falar sobre autismo, mas rever o modo como convivemos com a diferença. Não apenas iluminar prédios, mas iluminar práticas. Não apenas repetir que é preciso conscientizar, mas assumir que pertencimento, acessibilidade e qualidade de vida devem estar no centro da conversa.

Porque, no fim, o que pessoas autistas e suas famílias buscam não é apenas visibilidade. Buscam respeito, apoio e espaço legítimo para existir. O autismo já não pede apenas atenção. Pede compromisso.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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