A política imigratória que impulsionou a campanha de Donald Trump em 2024 e ajudou a reconduzi-lo à Casa Branca agora se transforma em um desafio político às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms.

Ao longo do último ano, imagens de agentes de imigração prendendo e perseguindo supostos imigrantes em situação irregular circularam amplamente nas redes. Como resultado, cenas de violência, detenções e retiradas forçadas de pessoas de suas casas aumentaram a tensão entre a população e os agentes — especialmente os do Immigration and Customs Enforcement (ICE).

Episódios de violência ampliam crise

O ponto de maior tensão ocorreu neste ano, quando agentes mataram dois cidadãos americanos em Minnesota, em episódios distintos, durante protestos contra as operações e denúncias de violência institucional.

Em resposta, o governo Trump classificou rapidamente as vítimas como terroristas e as descreveu como ameaças aos policiais. No entanto, imagens divulgadas posteriormente mostraram outra versão dos fatos. Assim, o caso gerou protestos, críticas dentro do próprio Partido Republicano e desgaste na imagem do presidente.

Aprovação da política cai, aponta pesquisa

Levantamento da Reuters em parceria com a Ipsos, divulgado nesta quarta-feira (22), evidencia o impacto político da crise.

Logo após a posse, em janeiro de 2025, 50% dos americanos aprovavam a política imigratória do governo. Agora, esse índice caiu para 40%. Além disso, o estudo indica que 52% dos eleitores têm menos probabilidade de votar em candidatos que apoiam a abordagem de Trump para deportações, enquanto 42% demonstram maior propensão a apoiar esse perfil.

Entre eleitores independentes, a rejeição cresce ainda mais: 57% preferem candidatos contrários às políticas atuais, contra 32% que apoiam nomes alinhados ao presidente.

Eleitores defendem controle, mas rejeitam abordagem

Os dados revelam uma contradição no eleitorado. Por um lado, 84% dos entrevistados consideram importante manter fronteiras seguras e, além disso, 87% defendem o cumprimento das leis de imigração.

Por outro lado, muitos criticam a forma como o governo conduz essas ações. Apenas um em cada quatro entrevistados avalia que a repressão atual se tornou menos agressiva. Ao mesmo tempo, 70% afirmam que uma abordagem mais moderada seria positiva.

Críticas crescem dentro do Partido Republicano

A tensão também alcançou o Partido Republicano. A deputada Maria Elvira Salazar criticou publicamente a condução da política migratória após os episódios de violência.

“Ninguém quer ver americanos mortos” nas ruas, afirmou, ao classificar o caso como uma tragédia e cobrar um relatório transparente sobre os incidentes.

Segundo Salazar, o sistema imigratório atual enfrenta problemas estruturais, resultado de décadas de inação do Congresso e de leis consideradas ultrapassadas. Para ela, o momento exige um debate mais amplo e reformas imediatas.

Debate sobre prioridades na política migratória

Em texto recente, a deputada defendeu que as ações de fiscalização priorizem criminosos de alta periculosidade. “Coiotes, chefes de cartel e traficantes de drogas” deveriam ser o foco, e não trabalhadores sem documentação, como cozinheiros, pedreiros e cuidadores.

Além disso, em entrevista à imprensa americana no mês passado, ela afirmou estar “muito preocupada” com os rumos da política migratória dentro do partido.

Impactos já aparecem na gestão

As consequências da crise já se refletem na administração. Autoridades interromperam operações, promoveram mudanças no comando da Secretaria de Segurança Interna e alteraram a chefia das operações.

Como resultado, o ritmo de detenções desacelerou de forma perceptível. Assim, uma das principais bandeiras do governo passou a representar um ponto de vulnerabilidade política — cenário que pode influenciar diretamente o resultado das urnas nas eleições de novembro.

(*) Com informações da Folha de S. Paulo

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