O escritório de direitos humanos da ONU afirmou que cerca de um terço dos palestinos mortos por Israel desde o cessar-fogo de outubro estava em áreas próximas à linha de armistício militar com o Hamas. Segundo o órgão, os dados levantam preocupações sobre possíveis ataques contra civis que apenas se aproximavam da região controlada pelas tropas israelenses.
Além disso, a agência avaliou que essas ações podem configurar assassinatos ilegais e, consequentemente, crimes de guerra. Até o momento, o Exército de Israel não comentou as declarações. As forças israelenses afirmam que realizam disparos próximos à linha de armistício para impedir ameaças de militantes.
ONU aponta avanço da zona militar em Gaza
Após o cessar-fogo, Israel delimitou a fronteira de armistício com o Hamas por meio de uma “linha amarela”, marcada no solo com blocos de concreto. Atualmente, tropas israelenses permanecem posicionadas a leste da área, enquanto o Hamas mantém o controle da faixa costeira.
No entanto, segundo a ONU, o Exército israelense tem deslocado os blocos de concreto para dentro do território controlado pelo Hamas. Além disso, mapas israelenses indicam que a zona militar restrita já cobre quase dois terços da Faixa de Gaza.
O plano de cessar-fogo mediado por Donald Trump previa a retirada gradual das tropas israelenses do território palestino. Porém, até este mês, Israel não iniciou esse processo.
Palestinos relatam medo perto da “linha amarela”
A ampliação da área militar tem aumentado o temor entre palestinos deslocados que vivem em acampamentos improvisados e imóveis destruídos próximos à chamada “linha amarela”.
Dados compartilhados pela ONU com exclusividade à agência Reuters mostram 453 mortes confirmadas desde o cessar-fogo até 5 de fevereiro. Desse total, 152 vítimas estavam perto da fronteira. Entre elas, havia 102 homens, 15 mulheres, 24 meninos e 11 meninas.
“As informações disponíveis levantam sérias preocupações de que o Exército israelense esteja atirando e matando supostos civis simplesmente por estarem próximos à chamada ‘linha amarela’, o que configuraria assassinatos ilegais e, portanto, crimes de guerra”, disse Ajith Sunghay, ao classificar o cenário como alarmante.
“Os civis não parecem representar qualquer risco para a vida dos militares israelenses, incluindo alguns casos em que aparentemente foram baleados enquanto realizavam atividades cotidianas ou ao se aproximarem ou cruzarem a chamada ‘linha amarela’ de Israel”, disse ele.
Segundo Sunghay, muitos palestinos não conseguem identificar com clareza os limites da área militar.
“Ninguém sabe exatamente onde ela começa, onde termina, como se move e quando se move.”
Conflito segue mesmo após cessar-fogo
Autoridades israelenses descrevem as áreas ocupadas em Gaza, na Síria e no Líbano como “zonas de amortecimento”. Segundo Israel, esses territórios servem para impedir novos ataques semelhantes ao realizado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, episódio que desencadeou a atual guerra em Gaza.
Apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, Israel manteve ataques na Faixa de Gaza e continuou a atingir líderes do Hamas. Nas últimas duas semanas, duas lideranças do grupo morreram em operações israelenses.
Segundo autoridades de saúde de Gaza, aproximadamente 900 palestinos morreram em ataques israelenses desde a trégua. No entanto, os dados não detalham os locais das mortes.
Por outro lado, o Exército israelense informou que quatro soldados morreram em confrontos com militantes durante o mesmo período. Já o Hamas não divulgou números sobre combatentes mortos.
(*) Com informações da Folha de S.Paulo
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