Qual o primeiro, qual mandamento que está na base, que mandamento sustenta todos os outros mandamentos? Que mandamento dá razão, dá sentido, concede comunhão, gera comunidade, família, Igreja? Jesus a indicar a essência do ser cristão: amar!
Ele recorda o Deuteronômio, a profissão de fé com a qual cada israelita inicia e conclui o seu dia: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6,4). O verdadeiro israelita expressa e conserva a sua fé na realidade fundamental de todo o seu ser, crer e existir: existe um único Senhor, e aquele Senhor é “nosso”, no sentido que se uniu a nós com laço indissolúvel, nos amou, nos ama e nos amará para sempre. O primeiro mandamento: ouvir quando e quanto fomos amados. Aquele que se fez um de nós, como nós, não outro de nós (Nicolau de Cusa).
Significativo que o Mestre recorde que o primeiro mandamento tem seu início na escuta: Ouve Israel! No jogo do amor ser amado, desperta para o amor. Quando se escuta o tinir do amor, quando se apercebe Amado, acontece o despertar para o amor e ser impelido a amar. Talvez, por isso, nos ensina São João de Ávila: “A causa que em maior medida estimula o nosso coração ao amor de Deus é considerar profundamente o amor que Ele teve por nós… Este, mais que os benefícios, estimula o coração a amar; porque aquele que presta um benefício a outro, dá-lhe algo que possui; mas aquele que ama, dá-se a si mesmo com tudo o que tem, sem que lhe reste algo mais para dar.” (Tratado do amor de Deus, n. 1). Deu-se a si mesmo aquele que ama! Um amor desmedido, transbordante, gratuito. Se gratuito, não fosse, deixaria de ser amor.
Admirado, entusiasmado, com a presença apouca, simples, pobre de Deus na Eucaristia, São Francisco exclama, canta, louva: “Pasme o homem inteiro, estremeça todo o mundo e exulte o céu quando, sobre o altar, na mão do sacerdote, está Cristo, Filho do Deus vivo (Jo 11,27); Ó admirável alteza e estupenda condescendência! Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde, pois o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha que, por nossa salvação, se esconde sob uma pequena forma de pão! Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sl 61,9); humilhai-vos também vós, para serdes exaltados por Ele (cfr. 1Pd 5,6; Tg 4,10). Por isso não retenhais nada de vós para vós mesmos, para que vos receba inteiros aquele que a vós se dá inteiro” (Ct a toda a Ordem, 26-29).
Na celebração de Corpus Christi, existe um convite à admiração, à gratidão, pela Presença benévola, gratuita e gratificante de Jesus na Eucaristia. Assim, na comunhão, vamos ao encontro do Pão descido do céu, com uma mão sobre a outra, como um trono, de pé, na disponibilidade e prontidão: “Vem Senhor Jesus”! Amém… E então no lugar dobramos os joelhos e O adoramos em nós para que sejamos um pouco como Ele, na humildade, no cuidado, na gratidão, na admiração.
Graças e louvores sejam dados a todo momento; ao Santíssimo e diviníssimo Sacramento, pois estimulados a amar como Ele ama; a ser nele, como Ele, não-outro dele. Um verdadeiro convite a irmos ao encontro dos mais necessitados, na prontidão, humildade e gratuidade. “Por isso não retenhais nada de vós, para vós mesmos, para que vos receba inteiros aquele que a vós se dá inteiro”.

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