Conforme matéria do Valor Econômico, a divulgação de um estudo mostrando que quase metade das florestas protegidas do Brasil está localizada em propriedades rurais privadas deveria provocar uma profunda reflexão sobre a política ambiental brasileira e, principalmente, sobre a realidade amazônica.

Dos cerca de 475 milhões de hectares de florestas protegidas existentes no país, aproximadamente 215 milhões de hectares estão dentro de propriedades privadas, o equivalente a 45,2% do total. Os demais 260 milhões de hectares encontram-se em áreas públicas, como unidades de conservação, terras indígenas e outras categorias protegidas pelo Estado.

Os números mostram que a preservação ambiental brasileira não é responsabilidade exclusiva do poder público. Ela também ocorre dentro das propriedades rurais em razão das exigências do Código Florestal.

Na Amazônia, essa realidade é ainda mais evidente. O produtor rural é obrigado a manter até 80% da área de sua propriedade como Reserva Legal, uma das maiores exigências de conservação privada do planeta. Isso significa que grande parte da floresta permanece em pé também porque milhares de proprietários são legalmente obrigados a preservá-la.

O dado expõe uma contradição frequentemente ignorada no debate ambiental. Embora o discurso público concentre atenção na fiscalização governamental, a própria estrutura de conservação brasileira demonstra que parcela significativa da proteção florestal ocorre dentro de imóveis privados.

Isso não diminui a importância do Estado. Cabe ao poder público elaborar a legislação, monitorar o território, combater crimes ambientais e administrar unidades de conservação. Contudo, os números revelam que a preservação efetiva depende igualmente da participação dos proprietários rurais.

No Amazonas, a discussão assume relevância ainda maior. O estado mantém mais de 90% de sua cobertura florestal preservada, mas enfrenta graves déficits de infraestrutura, logística e presença governamental em extensas áreas do interior.

Em muitos municípios, a população convive com a ausência do Estado em serviços básicos, manutenção de estradas, fiscalização territorial e apoio à produção sustentável. Cresce, assim, a percepção de desequilíbrio entre as exigências impostas à população amazônica e os investimentos efetivamente realizados na região.

A BR-319 tornou-se símbolo dessa controvérsia. Enquanto parte da sociedade amazonense defende a recuperação da rodovia como instrumento de integração e redução do isolamento logístico, grupos ambientalistas alertam para riscos de expansão do desmatamento e da ocupação irregular. O resultado é um impasse que se arrasta há décadas.

Para muitos amazonenses, o debate ambiental nacional parece concentrar-se em restringir obras e atividades econômicas, enquanto temas como regularização fundiária, bioeconomia, assistência técnica, fiscalização permanente e desenvolvimento regional recebem atenção insuficiente.

A principal lição desses números é que a conservação da Amazônia não pode apoiar-se apenas em proibições. Se quase metade das florestas protegidas do país está em áreas privadas, torna-se indispensável criar mecanismos que recompensem quem preserva. Mercado de carbono, pagamento por serviços ambientais, bioindústria, manejo sustentável e incentivos à economia da floresta precisam sair do discurso e transformar-se em realidade.

O Amazonas já oferece ao Brasil sua maior contribuição ambiental ao manter a floresta em pé. O desafio agora é construir um modelo em que preservação caminhe junto com desenvolvimento, infraestrutura e oportunidades para quem vive na região. Sem isso, continuará a sensação de que a Amazônia é tratada como patrimônio da humanidade, enquanto seus habitantes permanecem esquecidos pelo próprio país.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

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