Estados Unidos e Rússia negociam uma forma de manter os termos do Novo Start, último acordo vigente de controle de armas nucleares, que expirou nesta quinta-feira (5) após 15 anos em vigor.

A informação foi revelada pelo site americano Axios e confirmada à Folha por uma pessoa com conhecimento do assunto em Moscou.

O Novo Start perdeu validade após decisão do presidente Donald Trump, que rejeitou a proposta de Vladimir Putin de estender o tratado por mais um ano para permitir uma renegociação. Na semana passada, o americano afirmou que “se expirar, expirou” e defendeu “um acordo melhor”.

Enquanto participavam do segundo dia de conversas com representantes da Ucrânia sobre a guerra no Leste Europeu, em Abu Dhabi, delegações russa e americana mantiveram reuniões separadas para tratar do futuro do acordo nuclear.

Até o momento, os dois países anunciaram a criação de uma nova comissão de alto nível voltada a assuntos militares, o que amplia o grau de contato bilateral. Além disso, o Kremlin reiterou que segue aberto a negociações.

Manutenção informal das regras está em discussão

Segundo interlocutores, a proposta em debate prevê deixar o Novo Start expirar formalmente, já que não há tempo legal para renovação, mas manter seus termos na prática. A principal dúvida é se novas negociações incluirão outros países.

Trump sempre criticou o tratado por considerá-lo ultrapassado, sobretudo por não incluir a China. O país asiático vem ampliando rapidamente seu arsenal nuclear. De acordo com a Federação dos Cientistas Americanos, Pequim possuía 290 ogivas em 2019, número que chegou a 600 neste ano.

Já o Pentágono avalia que a China pode alcançar paridade com Estados Unidos e Rússia até 2035, ao menos no limite estabelecido pelo Novo Start: 1.550 ogivas operacionais e até 800 lançadores por país, entre mísseis terrestres, submarinos e bombardeiros.

China evita compromisso e Rússia sinaliza mudança

A ausência da China quase levou ao fim do tratado em seu prazo original, em 2021. À época, Pequim e Moscou rejeitavam a necessidade de incluir o país asiático, mas o governo de Joe Biden decidiu estender o acordo por cinco anos.

Nesta quinta-feira (5), a China evitou se comprometer. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, lamentou o fim do tratado e afirmou que o país compartilha preocupações globais sobre o tema. Ele também exortou Moscou e Washington a buscarem um novo acordo —sem mencionar a participação chinesa.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, adotou tom conciliador e disse que Pequim não se considera no mesmo patamar das duas potências. Ainda assim, no ano passado, ele afirmou que a posição russa havia mudado e que outros países deveriam participar das negociações sobre controle de armas.

Mais potências e novas tecnologias entram no debate

Atualmente, nove países possuem armas nucleares. Entre eles estão França e Reino Unido, aliados dos EUA na Otan, que somam 515 ogivas —um arsenal comparável ao chinês, embora com menos vetores de lançamento. A China, assim como Rússia e Estados Unidos, opera a chamada tríade nuclear, com armas lançadas de solo, submarinos e bombardeiros.

Na quarta-feira (4), o Ministério das Relações Exteriores da Rússia divulgou uma nota criticando os Estados Unidos e indicando que pode entrar em uma corrida armamentista, se considerar necessário. O comunicado não mencionou que o próprio Vladimir Putin congelou o regime de inspeções do tratado em 2023, em resposta às sanções impostas pela guerra na Ucrânia.

Até agora, a Casa Branca não comentou oficialmente o fim do Novo Start. Embora o argumento da obsolescência do tratado seja debatido, a ausência de um acordo abre espaço para um cenário sem regras no controle de armas nucleares, algo que não ocorria há 54 anos.

Risco nuclear aumenta, alerta ONU

O primeiro acordo entre soviéticos e americanos foi assinado em 1972. Desde então, seis tratados foram firmados, com poucos períodos sem vigência formal, mas com respeito geral às regras —com exceção de meados dos anos 1980, no fim da Guerra Fria.

Além da ampliação do número de participantes, especialistas apontam desafios tecnológicos. O Novo Start se limitava a ogivas estratégicas, de alto poder destrutivo. Hoje, no entanto, cresce a preocupação com o uso de armas nucleares táticas, menos potentes e voltadas a cenários específicos de combate.

Também avançam os meios de lançamento, como mísseis hipersônicos, torpedos nucleares e armas espaciais. Nesse campo, a Rússia mantém vantagem, após investir em sistemas já testados com cargas convencionais na guerra da Ucrânia.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o fim do tratado como um “grave momento”. Segundo ele, a expiração nesta quinta-feira (5) “não poderia vir num momento pior”. “O risco de uma arma nuclear ser usada é o maior em décadas”, escreveu em nota.

Leia mais: Brasil registra recorde de feminicídios em 2025, com média de quatro mortes por dia