O rali do Ibovespa em janeiro de 2026 não pode ser compreendido apenas por variáveis domésticas. Trata-se de um movimento fortemente influenciado pela geopolítica global e, em especial, pelas incertezas geradas pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos.

O recorde sucessivo do índice, que ultrapassou pela primeira vez os 190 mil pontos, reflete uma reconfiguração do fluxo internacional de capitais, na qual o Brasil passou a ocupar posição estratégica entre os mercados emergentes.

O principal vetor desse movimento foi o ingresso maciço de capital estrangeiro. Apenas nos primeiros 40 dias de 2026, os investidores internacionais aportaram cerca de R$ 30,5 bilhões na Bolsa brasileira, superando o total de 2025. Esse fluxo extraordinário está associado ao fenômeno conhecido como “Sell America”, caracterizado pela redução de exposição a ativos americanos em favor de emergentes.

O trade “Sell America” ganhou força diante da instabilidade política e institucional promovida por Donald Trump. A rotação global de ativos foi impulsionada pela interferência do presidente norte-americano na conjuntura geopolítica mundial. A liquidação de posições em ações americanas, Treasuries e dólar abriu espaço para a compra de ativos de países emergentes e metais, favorecendo diretamente o Brasil.

Outro fator crucial foi o questionamento sobre a independência do Federal Reserve. Analistas apontaram que os ataques de Trump ao banco central americano e a escolha do novo presidente do Fed geraram dúvidas sobre possível intervenção política na autoridade monetária. Esse risco institucional elevou a percepção de incerteza nos Estados Unidos, incentivando a diversificação geográfica dos portfólios globais.

A ameaça à Groenlândia e outros episódios de política externa agressiva reforçaram o ambiente de instabilidade. Os ruídos da administração Trump, incluindo tensões diplomáticas com aliados históricos, intensificaram a rotação de recursos para mercados emergentes. Esse ambiente elevou o prêmio de risco dos ativos americanos, deslocando parte do capital para economias com maior previsibilidade institucional relativa.

Além da dimensão geopolítica, houve uma mudança estrutural na alocação global. Como os Estados Unidos concentram cerca de 70% da indústria global de fundos, enquanto os emergentes somam apenas 6%, qualquer redução marginal de exposição americana gera influxo expressivo nos mercados emergentes. Assim, mesmo um ajuste pequeno nos portfólios globais teve impacto desproporcional na B3.

A entrada recorde de estrangeiros em janeiro de 2026 confirma esse padrão. O mês registrou o segundo melhor fluxo externo da série histórica, com R$ 26,3 bilhões de saldo positivo. Esse montante consolidou o protagonismo do investidor internacional no atual ciclo de alta, enquanto o investidor institucional doméstico permaneceu mais cauteloso.

Do ponto de vista doméstico, o diferencial de juros também desempenhou papel relevante. A expectativa de início de corte da Selic, atualmente em 15%, combinada à percepção de estabilização inflacionária, reforçou o apetite por ações. Além disso, a perspectiva de crédito mais barato melhora as projeções de lucro das empresas.

Outro fator relevante foi a força demonstrada pelas grandes companhias brasileiras na temporada de resultados. Mesmo sob um ambiente de juros ainda elevados, empresas como bancos, Petrobras, Vale e companhias do setor de papel e celulose apresentaram balanços consistentes, com geração robusta de caixa e manutenção de margens operacionais.

Esse desempenho reduziu a percepção de risco corporativo e fortaleceu a confiança do investidor estrangeiro de que a lucratividade das empresas brasileiras poderia sustentar o atual ciclo de valorização. 

Importante destacar que o rali concentrou-se em papéis de maior liquidez e peso no índice, como Petrobras, Vale e bancos. Isso indica que parte relevante do fluxo foi orientado por realocação macro, e não necessariamente por uma tese microeconômica específica.

Em síntese, o rali do Ibovespa em janeiro de 2026 resulta da combinação entre instabilidade geopolítica nos Estados Unidos, marcada por interferências no Fed, tensões diplomáticas e ruídos institucionais, e fundamentos domésticos relativamente estáveis.

A política de Trump gerou aversão a ativos americanos, impulsionando o “Sell America” e promovendo uma rotação global para emergentes. O Brasil, com juros elevados, expectativa de corte da Selic e valuations atrativos, tornou-se um dos principais destinos desse capital, explicando a sucessão histórica de recordes no início de 2026.

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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