O imaginário popular costuma tratar a saúde masculina entre o tabu e o desconhecimento. Uma das dúvidas mais frequentes no consultório é sobre a possibilidade de “quebrar” o órgão genital.
Afinal, se o pênis não possui osso, como ele poderia sofrer uma fratura? A resposta é curta e direta: sim, é verdade. A fratura de pênis existe, é uma emergência urológica grave e sua incidência aumenta drasticamente em períodos de festas e grandes aglomerações.
Para compreender o trauma, precisamos entender a mecânica da ereção. O pênis é composto por cilindros de tecido esponjoso chamados corpos cavernosos. Quando o homem fica ereto, esses cilindros se enchem de sangue sob alta pressão. Eles são revestidos por uma membrana fibrosa e elástica chamada túnica albugínea.
Durante a ereção, essa membrana estica e fica mais fina. A “fratura” ocorre quando há uma ruptura ou seção dessa túnica devido a um impacto brusco ou uma dobra acentuada do órgão rígido. As estatísticas são reveladoras.
No Hospital Souza Aguiar, referência em urgências no Rio de Janeiro, a média é de quatro atendimentos por mês. Contudo, durante o Carnaval, esse número salta para quase um caso por dia.
No Amazonas, coordenei uma pesquisa durante 18 meses que documentou 35 casos. O padrão é claro: o aumento do consumo de álcool e substâncias entorpecentes reduz a inibição e a coordenação motora, levando a relações sexuais mais vigorosas e, consequentemente, a um maior risco de trauma.
Os sinais da fratura são dramáticos e inconfundíveis. O paciente geralmente relata um “estalido” audível, seguido de dor intensa e a perda imediata da ereção. Em poucos minutos, ocorre um edema (inchaço) significativo, e o pênis assume uma coloração arroxeada, característica do hematoma interno. É o que chamamos tecnicamente de deformidade em “berinjela”.
O trauma ocorre comumente quando o órgão escapa durante o ato e colide contra o púbis da parceria ou em posições onde o peso do corpo do parceiro exerce pressão sobre o pênis dobrado.
Um caso emblemático de nossa pesquisa em Manaus ilustra como o contexto emocional influencia o risco. Um paciente deu entrada na urgência após uma briga conjugal. No ímpeto de “revidar” a discussão, buscou um encontro casual e, no calor do momento, sofreu a fratura.
O desfecho foi uma cirurgia de emergência e um pós-operatório delicado, um preço alto pago pela imprudência momentânea. O tratamento para a fratura peniana é estritamente cirúrgico. Não há espaço para o “esperar para ver”.
A intervenção deve ser imediata para drenar o hematoma e suturar a ruptura na túnica albugínea. A negligência por vergonha ou medo de procurar o hospital pode resultar em sequelas irreversíveis, como a curvatura peniana permanente, cicatrizes dolorosas e a temida disfunção erétil.
A conscientização é o melhor remédio. O prazer não deve ser dissociado do cuidado. Em tempos de celebração, a moderação e a atenção ao próprio corpo são essenciais para que um momento de descontração não termine em uma mesa de cirurgia.

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