A história mostra que grandes guerras muitas vezes começam com eventos aparentemente pontuais. Em 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo desencadeou uma sequência de alianças militares e tensões que culminaram na Primeira Guerra Mundial.

Em um cenário hipotético contemporâneo, o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, pode desempenhar papel semelhante: um estopim capaz de incendiar um sistema internacional já profundamente tensionado.

Assim como em 1914, o mundo atual vive uma rede complexa de alianças, rivalidades estratégicas e disputas econômicas que tornam qualquer choque localizado potencialmente global.

Nesse contexto, os Estados Unidos aparecem como um dos principais protagonistas da escalada geopolítica. Ao confrontar diretamente o Irã, Washington não estaria apenas atacando um adversário regional, mas também atingindo indiretamente a China.

Isso ocorre porque cerca de 11% do petróleo importado por Pequim tem origem iraniana, tornando o Irã um parceiro energético estratégico para a potência asiática.

Dessa forma, qualquer ataque ou desestabilização do Irã representa uma forma indireta de pressão sobre a China.

Ao comprometer o fluxo energético para a economia chinesa, os Estados Unidos poderiam fragilizar o crescimento industrial, o abastecimento de energia do país e o avanço da inteligência artificial na China.

Em termos estratégicos, trata-se de uma disputa que ultrapassa o Oriente Médio e alcança o centro da rivalidade entre as duas maiores potências do século XXI.

Entretanto, essa estratégia pode produzir efeitos opostos aos desejados. Ao perceber-se cercada economicamente e ameaçada em seus interesses vitais, a China pode interpretar o cenário internacional como uma janela de oportunidade para redefinir o equilíbrio de poder no Indo-Pacífico.

Em momentos de instabilidade global, grandes potências frequentemente agem para consolidar posições estratégicas antes que o sistema internacional se reorganize.

Nesse sentido, Taiwan surge como o ponto mais sensível dessa disputa. Se a Rússia invadiu a Ucrânia e os Estados Unidos intensificaram confrontos no Oriente Médio, Pequim pode concluir que o sistema internacional já entrou em uma fase de ruptura.

Em tal contexto, a liderança chinesa poderia avaliar que este é o momento ideal para agir militarmente e tentar incorporar Taiwan, antes que novas alianças ou rearranjos de poder tornem essa ação mais difícil.

O mundo, portanto, parece caminhar para a maior transformação geopolítica desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, a ordem internacional foi marcada por certo equilíbrio entre grandes potências e por instituições multilaterais que moderavam conflitos.

Hoje, esse sistema demonstra sinais evidentes de desgaste, enquanto rivalidades estratégicas voltam a ocupar o centro da política global.

Essa mudança estrutural coloca a humanidade diante de um cenário inquietante. O aumento das tensões militares entre potências nucleares eleva o risco de erros de cálculo, acidentes diplomáticos ou decisões precipitadas que podem desencadear uma escalada irreversível.

O planeta, mais uma vez, parece caminhar à beira de um precipício capaz de levar à destruição em escala sem precedentes.

Outro elemento preocupante dessa possível guerra global é o desenvolvimento acelerado de novas tecnologias militares. Conflitos contemporâneos têm servido como verdadeiros laboratórios para testar armas avançadas, sistemas autônomos e estratégias digitais.

Entre essas inovações, a inteligência artificial ocupa posição central, permitindo desde drones autônomos até sistemas sofisticados de análise estratégica em tempo real.

O uso da inteligência artificial na guerra pode acelerar significativamente o avanço dessa tecnologia. No entanto, esse progresso também traz riscos imensos para a humanidade. Sistemas militares baseados em algoritmos podem reduzir o tempo de decisão para segundos, aumentando a possibilidade de erros catastróficos e diminuindo o controle humano sobre decisões de vida ou morte.

Assim, a própria lógica da guerra moderna tende a tornar os conflitos mais rápidos, mais automatizados e potencialmente mais destrutivos. A combinação entre rivalidade geopolítica intensa, armas de alta tecnologia e decisões cada vez mais automatizadas cria um ambiente extremamente instável.

Nesse contexto, a humanidade passa a conviver com ameaças que vão muito além dos modelos tradicionais de guerra.

No plano político interno dos Estados Unidos, esse cenário também levanta preocupações. Críticos argumentam que Donald Trump governa de maneira cada vez mais autoritária, tomando decisões estratégicas de enorme impacto global sem os freios institucionais tradicionais.

O país que durante décadas foi apresentado como exemplo de democracia liberal passa a enfrentar questionamentos sobre o funcionamento de suas próprias instituições.

Para esses críticos, o Congresso americano parece incapaz de impor limites efetivos às decisões do Executivo. Ao permanecer passivo diante de uma política externa agressiva e imprevisível, o Legislativo daria a impressão de estar de joelhos diante de uma liderança considerada por opositores como descontrolada.

Nesse contexto, o mundo observa com apreensão enquanto a principal potência global parece caminhar rumo a um período de profundas turbulências.

Farid Mendonça Júnior – Economista, advogado, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

Leia mais: