Na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, onde trabalho, volta e meia me pego em debates de altíssima relevância com minha colega jornalista Lucyleny Rocha. Altíssima mesmo. Coisa fina. Assunto capaz de decidir o rumo da humanidade ou pelo menos de uma boa conversa de corredor.

Outro dia, por exemplo, discutíamos se o correto é “anos 1950” ou “anos 50”. Parece pouco, eu sei. Lucyleny quase caiu da cadeira de tanto rir. E não foi pela dúvida, pobrezinha da dúvida. Foi pelo espetáculo das minhas convicções em estado bruto.

Porque eu defendi, com uma energia que normalmente só aparece em finais de campeonato, que “anos 50” resolve tudo. É simples, direto, elegante. Uma havaiana confortável da língua portuguesa. Já “anos 1950” vem todo alinhado, perfumado, com cara de quem pede licença para entrar na frase. Nada contra. Cada um com seu estilo, ou marmotas.

Agora “anos 5o” não dá. Não dá mesmo pra aturar. Aquilo não é expressão, é um pedido de socorro tipográfico. Fica no meio do caminho entre número e palavra, como um parente distante que aparece no almoço e ninguém sabe quem convidou. A conversa começou a esquentar exatamente aí.

Fiel ao ditado popular “cada louco com sua mania”, fui adiante. Perguntei se estamos falando de décadas ou de milênios. Sim, eu fui por esse caminho. Algo como um Sócrates de beira de igarapé. Lucyleny já estava rindo antes mesmo de eu concluir. Ela me conhece.

Argumentei que ninguém em pleno uso das faculdades mentais vai confundir “anos 50” com o quinto milênio de coisa alguma. A pessoa quer falar de música antiga, cinema em preto e branco, gente elegante suando em roupa quente. Não de eras geológicas.

Lucyleny ria. E quanto mais ela ria, mais eu elaborava. Falei de contexto, de comunicação eficiente, de economia de caracteres. Em algum momento quase redigi um manifesto contra o excesso de pontuação. Um texto firme, enxuto, sem ponto e vírgula, porque há limites éticos. Quase espinafrei a Academia Brasileira de Letras.

E há também outras batalhas pessoais. Lucyleny, por exemplo, nutre um horror pelo trema. Aquele maldito sinal gráfico com dois pontinhos, também conhecido como diérese. Um enfeite que parecia ter prazer em complicar a vida alheia. Felizmente foi abolido pelo Acordo Ortográfico de 1990. Mas não totalmente. Sobrevive em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros. Ou seja, o tormento não acabou. Ele apenas mudou de endereço. Resiste como uma maldição ortográfica.

No fim, como toda boa discussão civilizada, chegamos a um acordo tácito. Ela continua rindo das minhas teorias. Eu continuo escrevendo “anos 50” do jeito que me sinto em paz. Sem ponto e vírgula, sem travessão, sem sobressaltos. E com uma convicção inabalável. Se um dia eu escrever “anos 5o”, podem me interditar sem cerimônia. Porque aí já não sou mais eu.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi é jornalista, colaborador do EM TEMPO e assessor especial na Assembleia Legislativa do Amazonas

Leia mais: