A maternidade mudou a forma como elas enxergam o mundo e também a política. Entre agendas intensas, sessões parlamentares e a rotina com os filhos, mulheres que ocupam espaços de decisão no Amazonas relatam como a experiência de ser mãe passou a influenciar diretamente a construção de políticas públicas, principalmente nas áreas de inclusão, saúde, educação e proteção às famílias.

Na edição especial de Dia das Mães, a reportagem ouviu a deputada estadual Joana Darc, a deputada estadual Mayra Dias e a vereadora Yomara Lins. Em comum, elas compartilham os desafios de conciliar a vida pública com a maternidade e defendem uma política mais sensível às necessidades das mulheres e das crianças.

A maternidade como transformação na vida pública

Mãe de Joaquim e Ana Darc, a deputada estadual Joana Darc (União Brasil) afirma que a maternidade marcou de forma expressiva a maneira de sua atuação no parlamento.

“Existe uma Joana antes e depois da maternidade. Depois que me tornei mãe, passei a ter ainda mais sensibilidade para entender as reais necessidades das famílias, principalmente as das famílias atípicas”, afirma.

Segundo a parlamentar, a experiência de ser mãe reforçou pautas que já faziam parte do mandato, especialmente aquelas ligadas à infância, inclusão, saúde e dignidade.

A deputada afirma que a vivência como mãe de uma criança com síndrome de Down também ampliou o olhar para os desafios enfrentados por famílias atípicas no Amazonas.

“Hoje, eu não falo apenas como deputada, mas como mãe que entende, sente e luta diariamente por mais respeito, oportunidades e políticas públicas que realmente façam diferença na vida das pessoas”, destaca.

Joana Darc defende que o debate sobre inclusão precisa avançar para além das crianças e alcançar também quem exerce o cuidado diário.

“Também passei a entender que não basta cuidar apenas da criança. É preciso cuidar de quem cuida. Muitas mães enfrentam uma sobrecarga enorme e, muitas vezes, estão sozinhas nessa caminhada”, ressalta.

Entre o parlamento e a maternidade

A deputada estadual Mayra Dias (PSD) também vivenciou a maternidade durante o exercício do mandato. Ela chegou à Assembleia Legislativa com o filho Henry ainda bebê e, durante o período parlamentar, também se tornou mãe de Maya.

“A maternidade é o que dá o tom do meu trabalho. Ver meus filhos crescendo enquanto ocupo uma cadeira na Assembleia faz com que cada projeto que eu analiso ganhe um rosto. Quando luto por saúde ou educação estou pensando na mãe que, assim como eu, quer ver seus filhos crescerem com segurança e dignidade”, afirma.

De acordo com a deputada, conciliar a maternidade com a atuação parlamentar é um desafio diário. Ela relembra que viveu a experiência de exercer o mandato durante a gravidez e, posteriormente, precisou dividir a rotina entre sessões legislativas e a amamentação dos filhos.

“O desafio é constante, especialmente porque vivi a experiência de ser parlamentar grávida e, depois, de amamentar entre uma sessão e outra. Conciliar as agendas intensas, as viagens ao interior e as reuniões de comissão com a rotina de dois filhos pequenos exige um equilíbrio emocional e uma organização muito grandes”, relata.

Para a deputada, ainda faltam políticas públicas que ofereçam suporte às mulheres que acumulam múltiplas funções.

“O avanço mais urgente é garantir uma rede de apoio real. Isso passa pela ampliação de creches em tempo integral, mas vai além: precisamos de políticas que garantam a proteção à maternidade no mercado de trabalho e no ambiente acadêmico”, defende. “Precisamos de um olhar mais sensível para a primeira infância e para o bem-estar dessas mulheres, assegurando que elas tenham condições de prover para suas famílias sem precisar abrir mão do cuidado com seus filhos”, completa.

Um olhar mais humano para as famílias

A vereadora Yomara Lins (Podemos) conta que se tornou mãe antes de ingressar na vida pública. Segundo ela, a experiência da maternidade contribuiu para a construção de um olhar mais humano no exercício do parlamento.

“A maternidade veio como um chamado de responsabilidade e amor que transformou completamente a forma como eu enxergava o mundo. Sem dúvida, moldou meu olhar mais humano e sensível para as necessidades das pessoas”, afirma.

Mesmo diante da rotina intensa entre reuniões, visitas e compromissos parlamentares, Yomara afirma que busca o equilíbrio entre o exercício político e a presença na vida dos filhos.

“Eu procuro estar presente, mesmo com a correria. A verdade é que nenhuma mãe tem uma rotina fácil e comigo não é diferente. Mas tudo se organiza com amor, prioridade e propósito”, resume.

Espaços de decisão ainda desafiam mães na política

De acordo com as parlamentares, as instituições públicas ainda precisam avançar no acolhimento às mulheres que exercem a maternidade.

Joana Darc relembra que, ao engravidar, percebeu que não existia previsão de licença-maternidade para deputadas estaduais na Assembleia Legislativa do Amazonas e ela foi em busca do direito.

“Quando engravidei não existia previsão de licença-maternidade para deputadas. Trabalhei para garantir a criação desse direito dentro da Casa porque entendo que nenhuma mulher deve ser colocada diante da escolha entre a maternidade e o exercício do seu mandato”, afirma.

Para Yomara Lins, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é fundamental para fortalecer políticas públicas mais conectadas à realidade das famílias.

“A política precisa da sensibilidade, da força e da coragem das mulheres, especialmente das mães. Nós sabemos o que é cuidar, proteger e lutar todos os dias. E é exatamente isso que a política precisa”, disse a vereadora.

A deputada Mayra ressalta que a maternidade não deve ser um empecilho para o ingresso de mães na política, mas sim o incentivo para que a mulher ocupe espaços de destaque e de decisão no parlamento.

“Nossa vivência como mães nos dá uma capacidade de gestão e uma resiliência que são essenciais para o bem comum. Se nós, que sentimos as dificuldades do dia a dia, não estivermos lá para decidir, quem decidirá por nós? A política precisa da nossa força, do nosso amor e da nossa coragem para ser, de fato, transformadora”.

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