No Brasil, milhões de mulheres criam seus filhos sem a presença cotidiana de um companheiro. Para muitas delas, a maternidade solo não significa apenas ausência conjugal. Significa acumular renda, cuidado, decisões, escola, saúde, rotina e suporte emocional em uma mesma pessoa.

Ser mãe solo não é sinônimo de fragilidade. Muitas mulheres constroem trajetórias potentes, afetivas e competentes nessa condição. O risco aparece quando a responsabilidade pela casa, pelos filhos e pela segurança emocional recai quase inteiramente sobre uma única mulher. Nesses casos, o cuidado deixa de ser apenas vínculo e também se transforma em sobrecarga.

Uma revisão recente sobre monoparentalidade e depressão aponta que pais e mães solo podem apresentar maior vulnerabilidade emocional, especialmente diante de baixo suporte social, insegurança financeira, acúmulo de responsabilidades e isolamento (Kareem et al., 2024). O problema, portanto, não é a maternidade solo em si, mas a falta de suporte concreto para sustentar as exigências diárias do cuidado.

No Brasil, esse debate passa também pelo trabalho e pela renda. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada sobre a inserção das mães solo no mercado de trabalho mostra que elas enfrentam uma dupla desvantagem: recebem menos e ocupam empregos de pior qualidade. O Ipea destaca que, em 2022, mulheres já respondiam por 51,1% dos domicílios brasileiros, revelando uma mudança importante na chefia familiar do país (Ramos; Corseuil; Hecksher, 2026).

A maternidade solo também é atravessada por barreiras jurídicas e sociais. Reportagem da Agência Brasil mostrou que muitas mães enfrentam obstáculos para garantir direitos dos filhos, como pensão, guarda e visitas, além de dificuldades para acessar suporte físico e emocional. Segundo a matéria, cerca de 11 milhões de mulheres criavam sozinhas seus filhos no Brasil, dado da Fundação Getúlio Vargas com base em 2022 (Agência Brasil, 2025).

A ausência paterna não aparece apenas na falta de convivência. Ela também se manifesta quando a pensão não chega, quando a escola liga sempre para a mãe, quando as consultas dependem dela, quando a rotina é administrada sem divisão e quando a criança encontra em uma única pessoa quase todas as respostas para suas necessidades.

Por isso, chamar essas mães de “guerreiras” pode soar como homenagem, mas não substitui apoio real. Admiração não divide rotina, não garante descanso, não assegura pensão e não oferece acolhimento emocional. Mães solo não precisam de pena; precisam de corresponsabilidade, presença familiar, escola sensível, serviços de saúde acessíveis, políticas públicas, respeito e descanso possível.

Com o tempo, essa sobrecarga pode aparecer no corpo e no comportamento: sono ruim, irritabilidade, sensação de estar sempre em dívida, medo de faltar algo aos filhos e exaustão constante. Quando esses sinais persistem, não devem ser tratados como fraqueza, mas como pedido de cuidado.

A maternidade solo pode ser vivida com amor, competência e dignidade. Mas nenhuma mãe deveria precisar sustentar sozinha aquilo que pertence à família, ao Estado e à sociedade. Cuidar da saúde mental dessas mulheres é também proteger a infância e a segurança emocional de seus filhos.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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