As visitas de Donald Trump e Vladimir Putin a Xi Jinping simbolizam precisamente a nova posição chinesa no tabuleiro internacional. A China deixou de ser apenas um participante relevante do jogo geopolítico para assumir o papel de distribuidora das cartas. Em outras palavras: Pequim tornou-se o novo “dealer” do poker mundial.

Durante décadas, os Estados Unidos ocuparam o centro absoluto da ordem global. Washington determinava alianças, impunha sanções, controlava fluxos financeiros e exercia forte hegemonia tecnológica e militar. A China, naquele período, era vista principalmente como a “fábrica do mundo”, dependente das cadeias produtivas ocidentais e ainda distante de exercer influência política global equivalente. Entretanto, o século XXI alterou profundamente essa equação. O crescimento econômico chinês transformou-se em poder estratégico, diplomático, tecnológico e militar.

Hoje, a China consegue conversar simultaneamente com rivais estratégicos entre si sem romper pontes com nenhum deles. Pequim mantém relações econômicas profundas com os Estados Unidos, enquanto amplia a parceria energética, militar e diplomática com a Rússia. Ao mesmo tempo, expande investimentos na África, América Latina, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Essa capacidade de dialogar com atores antagônicos revela uma posição típica de quem controla a mesa de negociação internacional. Não é mais a China que reage ao jogo; é o mundo que precisa interpretar os movimentos chineses.

O simbolismo dos banquetes oferecidos por Xi Jinping a Trump e Putin não foi mero protocolo diplomático. Em geopolítica, cada detalhe importa. A forma de recepção, o ambiente, os discursos e a composição das reuniões funcionam como sinais cuidadosamente calculados. Pequim procura demonstrar que possui autonomia para modular suas relações conforme seus interesses estratégicos, sem subordinação ideológica automática. Trata-se de uma diplomacia pragmática, centrada em objetivos nacionais de longo prazo.

A grande diferença da estratégia chinesa em relação às potências tradicionais está na combinação entre paciência histórica e expansão econômica. Enquanto os Estados Unidos frequentemente utilizam pressão militar ou sanções econômicas, a China prefere consolidar influência por meio de infraestrutura, comércio, financiamento e tecnologia. A Belt and Road Initiative exemplifica essa lógica: Pequim financia portos, ferrovias, estradas e energia em dezenas de países, criando dependências econômicas e ampliando sua capacidade de influência política.

Além disso, a China assumiu a dianteira em setores estratégicos do século XXI. Inteligência artificial, baterias elétricas, energia solar, minerais críticos, carros elétricos e telecomunicações tornaram-se áreas nas quais os chineses já competem em igualdade ou até superioridade com o Ocidente. Empresas como a Huawei e a BYD mostram que a disputa global deixou de ser apenas industrial para tornar-se tecnológica e civilizacional.

Nesse contexto, a guerra comercial entre Estados Unidos e China revela justamente o temor norte-americano de perda de centralidade global. A disputa já não é apenas sobre tarifas ou déficit comercial. Trata-se da luta pela liderança da nova ordem econômica mundial. Washington percebe que Pequim está construindo mecanismos alternativos de poder financeiro, comercial e tecnológico capazes de reduzir a influência histórica do dólar e das instituições dominadas pelo Ocidente.

A Rússia, por sua vez, também depende cada vez mais da China diante do isolamento imposto pelas sanções ocidentais. Moscou encontra em Pequim um parceiro econômico vital para exportação de energia, importação de tecnologia e manutenção de sua estabilidade estratégica. Contudo, a relação sino-russa não é de igualdade plena. A China emerge como o sócio economicamente dominante, capaz de absorver vantagens estratégicas enquanto mantém uma postura pública de equilíbrio diplomático.

No poker mundial do século XXI, os Estados Unidos continuam sendo um jogador extremamente poderoso, a Rússia mantém relevância militar e energética, e a Europa ainda possui influência econômica significativa. Mas quem hoje distribui boa parte das cartas estratégicas do planeta é a China. Pequim compreendeu que poder não se exerce apenas com exércitos, mas também com cadeias produtivas, infraestrutura, financiamento, tecnologia e capacidade diplomática. Xi Jinping parece saber exatamente disso. E é por isso que a China deixou de ser apenas mais um jogador: tornou-se o novo dealer do poker mundial.

Farid Mendonça Júnior – Advogado, economista, administrador e Assessor Parlamentar no Senado Federal

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