Esta semana, vivenciei uma situação no consultório que me fez refletir profundamente sobre os gargalos que ainda enfrentamos na conscientização da saúde do homem.

Atendi um senhor de 75 anos e, diante do quadro delicado que ele apresentava, ficou mais uma vez evidenciada a urgência de desmistificar os exames de rotina. Quando falamos em avaliação urológica para homens acima dos 45 ou 50 anos, a maioria esmagadora pensa, quase que exclusivamente, no câncer de próstata.

No entanto, existe outra condição, de caráter não cancerígeno, que pode ser igualmente devastadora se ignorada: a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB), ou simplesmente o aumento benigno da próstata.

A HPB é uma patologia que geralmente começa a dar os seus primeiros sinais a partir da quinta década de vida. Estima-se que cerca de 90% dos homens que atingem os 80 anos de idade apresentarão algum grau dessa condição. Trata-se de um processo biológico complexo onde a testosterona, curiosamente, se comporta como uma espécie de vilã.

O hormônio masculino é um dos principais combustíveis responsáveis pelo estímulo ao crescimento do tecido prostático. Fatores como o aumento do colesterol e dos triglicerídeos, o diabetes, o sedentarismo, a obesidade e a herança genética atuam como aceleradores desse crescimento.

A próstata, localizada logo abaixo da bexiga e abraçando a uretra, funciona como um gargalo. Quando ela cresce de forma desordenada, passa a comprimir o canal urinário, gerando uma dificuldade progressiva para o esvaziamento completo da bexiga.

Para vencer a resistência da próstata aumentada, a musculatura da bexiga passa a fazer uma força descomunal para conseguir expelir a urina. Inicialmente, essa musculatura se hipertrofia, mas, se a obstrução não for resolvida a tempo através do uso de medicamentos específicos ou de intervenção cirúrgica, o órgão entra em exaustão.

A consequência final desse processo é a falência da musculatura da bexiga, uma condição médica crônica e grave. O grande drama dessa fase tardia é que, uma vez consolidada a falência muscular, mesmo uma cirurgia perfeitamente executada para desobstruir o canal pode não ser mais capaz de devolver ao homem a capacidade de urinar espontaneamente.

Voltando ao caso do meu paciente de 75 anos, o cenário que encontrei foi o reflexo direto da falta de acompanhamento preventivo. Ele relatou que nunca havia passado por uma consulta com um urologista na vida. Buscou o atendimento em caráter de urgência simplesmente porque não conseguia mais urinar sozinho e dependia de uma sonda vesical de demora para drenar a urina.

Realizamos os exames necessários e constatamos um aumento benigno prostático severo. Infelizmente, a bexiga dele já havia perdido completamente a capacidade de contração. Podemos até realizar a cirurgia de raspagem ou remoção da próstata para limpar o caminho, mas a resposta clínica costuma ser frustrante: a probabilidade de ele voltar a urinar livremente, sem o auxílio de cateteres, é mínima.

O aumento benigno da próstata pode levar à falência irreversível da bexiga e, em casos ainda mais extremos, provocar uma pressão retrógrada que compromete o funcionamento dos rins, evoluindo para uma insuficiência renal obstrutiva.

Minha recomendação como médico é direta: a avaliação urológica anual a partir dos 45 ou 50 anos é indispensável. Prevenir não significa apenas buscar por um tumor maligno, significa proteger a sua bexiga, salvaguardar seus rins e garantir o direito de envelhecer com dignidade, autonomia e qualidade de vida.

Dr. Flávio Antunes é urologista, referência em infertilidade masculina. Com mais de 20 anos de experiência, atende no Urocentro em Manaus e é professor da UFAM. CRM-AM 4851, RQE 1178. Instagram: @drflavioantunesuro

Leia mais: