Junho costuma ser celebrado como o mês do amor. As vitrines se enchem de corações, as campanhas publicitárias exaltam os relacionamentos e as redes sociais parecem lembrar, a todo momento, a importância de ter alguém ao lado. Mas, por trás desse cenário, existe uma realidade menos visível e cada vez mais presente: muitas pessoas não desistiram do amor; estão apenas cansadas de procurá-lo.

O fenômeno tem despertado o interesse de pesquisadores e profissionais da saúde mental. Não se trata necessariamente de solidão ou da ausência de relacionamentos, mas de um desgaste emocional associado à repetição de expectativas frustradas, conexões superficiais e experiências de rejeição. Em uma época marcada pela hiperconectividade, encontrar pessoas nunca foi tão fácil. Construir vínculos significativos, entretanto, continua sendo um desafio profundamente humano.

As transformações tecnológicas ampliaram as possibilidades de encontro, mas também intensificaram um aspecto silencioso das relações contemporâneas: a comparação constante. Fotografias cuidadosamente selecionadas, demonstrações públicas de felicidade e a sensação de que sempre existe alguém mais interessante disponível podem alimentar expectativas difíceis de sustentar na vida real. Pouco a pouco, a busca por afeto corre o risco de se transformar em uma busca por validação.

Quando isso acontece, situações comuns da vida relacional passam a carregar um peso emocional maior. Uma mensagem sem resposta, uma conversa que termina sem explicação ou uma aproximação que não evolui podem ser interpretadas não apenas como incompatibilidades naturais entre pessoas, mas como evidências de inadequação pessoal. O problema deixa de ser o desencontro e passa a ser o significado que atribuímos a ele.

Essa preocupação encontra respaldo na literatura científica. Uma revisão sistemática publicada em 2025 por Bowman e colaboradores, envolvendo 45 estudos, identificou associações entre experiências em aplicativos de relacionamento, pior percepção da imagem corporal, redução da autoestima e impactos negativos sobre a saúde mental e o bem-estar. Embora os autores ressaltem que esses efeitos não ocorrem da mesma forma para todos os indivíduos, os resultados sugerem que ambientes marcados por comparação frequente e avaliação constante podem aumentar a vulnerabilidade emocional de parte dos usuários.

No entanto, limitar essa discussão ao universo digital seria simplificar excessivamente o problema. A questão central parece estar na forma como construímos nossa autoestima em um contexto social que valoriza visibilidade, aprovação e reconhecimento. Quando o valor pessoal passa a depender excessivamente da aceitação do outro, cada rejeição tende a ser vivida como uma confirmação de insuficiência.

Talvez por isso o maior sofrimento não esteja em estar solteiro, mas em sentir-se descartável. E essa é uma diferença importante. A ausência de um relacionamento pode ser apenas uma circunstância da vida; já a sensação de não ser suficiente atinge diretamente a forma como a pessoa se percebe e se relaciona consigo mesma.

Neste mês dos namorados, talvez uma das reflexões mais importantes seja lembrar que relacionamentos saudáveis podem enriquecer a vida, mas não definem quem somos. Em tempos de conexões rápidas e comparações permanentes, cuidar da saúde mental também significa preservar a capacidade de reconhecer o próprio valor independentemente do status amoroso. Afinal, antes de encontrar alguém que nos escolha, é fundamental não perder a capacidade de escolher a nós mesmos.

Junho costuma ser celebrado como o mês do amor. As vitrines se enchem de corações, as campanhas publicitárias exaltam os relacionamentos e as redes sociais parecem lembrar, a todo momento, a importância de ter alguém ao lado. Mas, por trás desse cenário, existe uma realidade menos visível e cada vez mais presente: muitas pessoas não desistiram do amor; estão apenas cansadas de procurá-lo.

O fenômeno tem despertado o interesse de pesquisadores e profissionais da saúde mental. Não se trata necessariamente de solidão ou da ausência de relacionamentos, mas de um desgaste emocional associado à repetição de expectativas frustradas, conexões superficiais e experiências de rejeição. Em uma época marcada pela hiperconectividade, encontrar pessoas nunca foi tão fácil. Construir vínculos significativos, entretanto, continua sendo um desafio profundamente humano.

As transformações tecnológicas ampliaram as possibilidades de encontro, mas também intensificaram um aspecto silencioso das relações contemporâneas: a comparação constante. Fotografias cuidadosamente selecionadas, demonstrações públicas de felicidade e a sensação de que sempre existe alguém mais interessante disponível podem alimentar expectativas difíceis de sustentar na vida real. Pouco a pouco, a busca por afeto corre o risco de se transformar em uma busca por validação.

Quando isso acontece, situações comuns da vida relacional passam a carregar um peso emocional maior. Uma mensagem sem resposta, uma conversa que termina sem explicação ou uma aproximação que não evolui podem ser interpretadas não apenas como incompatibilidades naturais entre pessoas, mas como evidências de inadequação pessoal. O problema deixa de ser o desencontro e passa a ser o significado que atribuímos a ele.

Essa preocupação encontra respaldo na literatura científica. Uma revisão sistemática publicada em 2025 por Bowman e colaboradores, envolvendo 45 estudos, identificou associações entre experiências em aplicativos de relacionamento, pior percepção da imagem corporal, redução da autoestima e impactos negativos sobre a saúde mental e o bem-estar. Embora os autores ressaltem que esses efeitos não ocorrem da mesma forma para todos os indivíduos, os resultados sugerem que ambientes marcados por comparação frequente e avaliação constante podem aumentar a vulnerabilidade emocional de parte dos usuários.

No entanto, limitar essa discussão ao universo digital seria simplificar excessivamente o problema. A questão central parece estar na forma como construímos nossa autoestima em um contexto social que valoriza visibilidade, aprovação e reconhecimento. Quando o valor pessoal passa a depender excessivamente da aceitação do outro, cada rejeição tende a ser vivida como uma confirmação de insuficiência.

Talvez por isso o maior sofrimento não esteja em estar solteiro, mas em sentir-se descartável. E essa é uma diferença importante. A ausência de um relacionamento pode ser apenas uma circunstância da vida; já a sensação de não ser suficiente atinge diretamente a forma como a pessoa se percebe e se relaciona consigo mesma.

Neste mês dos namorados, talvez uma das reflexões mais importantes seja lembrar que relacionamentos saudáveis podem enriquecer a vida, mas não definem quem somos. Em tempos de conexões rápidas e comparações permanentes, cuidar da saúde mental também significa preservar a capacidade de reconhecer o próprio valor independentemente do status amoroso. Afinal, antes de encontrar alguém que nos escolha, é fundamental não perder a capacidade de escolher a nós mesmos.

Ana Claudia Pinto Oliveira é neuropsicóloga, diretora clínica do Instituto Desenvolver, com mestrado em Educação pela Universidade dos Pueblos de Europa; e pesquisadora do Laboratório de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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