Mais do que eliminar empregos, a automação, os sistemas digitais e as tecnologias emergentes redefinem o perfil da mão de obra no Polo Industrial de Manaus (PIM). Com isso, reduzem atividades operacionais e ampliam a demanda por profissionais qualificados e integrados às novas tecnologias.
No PIM, esse movimento já ocorre e deve se intensificar nos próximos anos, à medida que a indústria local avança em expansão e diversificação.
Automação transforma mais do que elimina empregos
De acordo com o professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Amazonas, Gustavo Neto, a automação impacta o mercado de trabalho, mas não de forma brusca.
Segundo ele, o relatório Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que, até 2030, cerca de 22% dos empregos devem passar por transformação. Ao mesmo tempo, serão criadas 170 milhões de novas vagas e eliminadas 92 milhões, o que gera saldo positivo de 78 milhões de postos de trabalho.
“A automação cria mais empregos do que destrói. O que muda é o perfil das funções e dos profissionais”, explicou.
Além disso, o professor destaca que esse processo não é recente. Ele cita a introdução de caixas eletrônicos e tecnologias médicas como exemplos de mudanças que reorganizaram funções, sem extinguir profissões.
“Quando os caixas eletrônicos surgiram, muita gente dizia que haveria uma redução drástica dos empregos bancários. O que ocorreu foi uma reorganização das atividades. O profissional passou a atuar menos na execução de operações rotineiras e mais em atendimento especializado como crédito, investimentos e relacionamento com clientes”, comentou.
No PIM, essa transição já acontece. Antes, o trabalhador operava máquinas mecânicas; hoje, interage com sistemas digitais, sensores e interfaces automatizadas.
“A automação não tem como principal finalidade substituir pessoas, mas reduzir sua exposição a atividades repetitivas, penosas ou perigosas, permitindo que os trabalhadores atuem em funções mais qualificadas, especializadas e estratégicas para o processo produtivo. O cenário é mais de transição do que de substituição brusca”, comentou Neto.
Novo perfil profissional ganha espaço
Com o avanço da inteligência artificial, da robótica e da análise de dados, o mercado exige um profissional mais preparado.
“Muitas funções operacionais deverão incorporar ferramentas digitais, sistemas inteligentes de monitoramento e análise de dados. O trabalhador que conseguir combinar conhecimento técnico de sua área com competências digitais terá maior empregabilidade e melhores oportunidades de crescimento”, enfatizou.
Além disso, as empresas valorizam a combinação entre competências técnicas e comportamentais. Entre elas:
- automação industrial e integração de sistemas
- programação e inteligência artificial
- análise e interpretação de dados
- robótica
- adaptabilidade, colaboração e aprendizagem contínua
“Não basta saber operar a tecnologia. É preciso saber utilizá-la para resolver problemas e gerar valor”, reforça.
“O trabalhador não será substituído pela tecnologia, mas precisará aprender a trabalhar com ela”, completa Gustavo Neto.
Indústria 4.0 avança de forma gradual no PIM
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, a Indústria 4.0 já está presente no Polo Industrial, mas avança de forma gradual.
Segundo ele, setores como eletroeletrônicos e duas rodas lideram a adoção de automação e inteligência de dados. Por outro lado, segmentos menores avançam de acordo com a capacidade de investimento.
Qualificação contínua é o principal desafio
Antonio Silva afirma que a automação não representa uma ameaça de desemprego em massa, mas uma mudança no perfil das ocupações.
“Estamos diante de uma transformação gradual do perfil das ocupações, não de uma ruptura brusca. A evolução tecnológica substitui progressivamente tarefas repetitivas e de maior risco operacional, ao mesmo tempo em que gera demandas por funções mais analíticas, estratégicas e de supervisão técnica. Eventuais oscilações no nível de emprego nos próximos anos estarão mais atreladas às flutuações macroeconômicas do mercado global do que à substituição tecnológica direta”, afirma.
O empresário concorda que o principal desafio é a qualificação da mão de obra.
“A convivência sinérgica entre sistemas inteligentes e o talento humano é a tônica desse processo de longo prazo, exigindo uma articulação sólida entre o setor produtivo e as instituições de ensino para preparar os profissionais para a nova realidade fabril”, disse.
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