Por: Igor Menezes

O poeta francês Victor Hugo escreveu a frase que dá título a este artigo em seu romance Noventa e Três (1874). A obra retrata personagens cheios de contradições e revela um traço profundamente humano: torcemos pelo final feliz, mas também desejamos que o vilão receba a punição que julgamos merecida. Esse sentimento desperta nosso senso de justiça, embora, em muitos momentos, ele se aproxime da vingança.

Nas histórias, assim como na vida, nem sempre conseguimos torcer apenas pelo bem. Queremos ver o mocinho vencer, mas também esperamos que quem causou sofrimento pague por seus atos. Essa contradição faz parte da natureza humana.

Compaixão também precisa de limites

Mesmo sabendo que um livro é ficção, ainda me incomodam personagens marcados pela maldade. Afinal, se o leitor consegue reconhecê-los na vida real, é porque o autor provavelmente se inspirou em pessoas que conheceu.

Victor Hugo mostra que a compaixão excessiva pode proteger quem não merece proteção. É o lobo em pele de cordeiro: alguém que aparenta fragilidade para manipular os outros e alcançar seus objetivos.

Essa reflexão revela outra contradição. Para existir quem engane, também precisa existir quem se deixe enganar.

Bondade não é ingenuidade

Maquiavel resumiu essa lógica na famosa ideia de que “os fins justificam os meios”. O ditado popular traduz o mesmo pensamento de forma simples: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Entretanto, acredito no contrário. Os meios justificam os fins. São nossas escolhas, nosso esforço e nossa postura que determinam os resultados.

Por isso, a compaixão não pode significar ingenuidade. O verdadeiro desafio está em estabelecer limites entre a generosidade e a falta de discernimento. Isso não reduz a bondade. Apenas evita desperdício de tempo, energia e oportunidades.

O conforto do piloto automático

O ser humano costuma viver no piloto automático porque isso exige menos esforço. Muitas vezes seguimos padrões sem refletir sobre eles. Fazemos porque sempre fizemos ou porque acreditamos que devemos fazer.

No entanto, chega um momento em que precisamos parar, olhar para o passado, compreender o presente e decidir que futuro queremos construir.

Equilíbrio e bom senso continuam sendo os melhores guias para enfrentar essas escolhas.

A verdadeira mudança começa em nós

Este não é um convite para despertar o pior lado das pessoas nem para defender uma perfeição impossível. O objetivo é provocar reflexão.

Toda mudança começa pelo autoconhecimento. A crítica mais importante é aquela que fazemos a nós mesmos.

Agir com consciência significa compreender que toda decisão produz consequências. Às vezes elas serão boas. Outras vezes, ruins. Em muitos casos, serão as duas coisas ao mesmo tempo.

Nem lobos, nem ovelhas

Assumir as próprias escolhas é uma responsabilidade que ninguém pode transferir. Da mesma forma, despertar a consciência significa abandonar pesos que carregamos sem perceber e reconhecer que, muitas vezes, também prejudicamos alguém quando acreditamos estar ajudando.

É preciso estabelecer limites entre a bondade e a ingenuidade. Não precisamos desejar o mal de ninguém, mesmo quando alguém parece merecê-lo.

Também não precisamos ser lobos nem ovelhas. Precisamos agir com coragem, equilíbrio e responsabilidade.

Buscar tranquilidade de espírito talvez seja o maior objetivo. Afinal, assim como cada dia traz seus próprios desafios, também existem dificuldades que nos fazem crescer. E, se algumas pessoas escolhem a ingratidão, esse é um problema delas. Não nosso.

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