A paratleta amazonense Marleide Sales conquistou, na manhã do último dia 31, o primeiro lugar na 100ª edição da tradicional Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo, na categoria Pessoas com Deficiência (PcD) Cadeirante Feminino.
Aos 52 anos, a ‘Borboletinha do Asfalto’, como Marleide é carinhosamente conhecida, completou os 15 quilômetros da prova em 44 minutos e 25 segundos. O resultado marca um feito histórico, já que esta foi sua estreia na Corrida de São Silvestre. “Me sinto muito feliz e emocionada ao participar e ganhar a São Silvestre na minha categoria. É uma experiência incrível e única. Um marco na minha vida”, comemorou a paratleta.
No entanto, para chegar ao primeiro lugar, a filha de dona Maria Sales e do senhor Francisco Ribeiro enfrentou muitas dificuldades desde a infância, quando foi acometida pela síndrome da paralisia infantil (poliomielite), aos dois anos de idade.
Diagnóstico

Segundo Marleide, a família residia no município de Manacapuru, no interior do Amazonas, e, devido às dificuldades geográficas, seus pais não tiveram acesso à vacina e, assim, ela contraiu a doença. Sua mãe, então, tornou-se sua principal aliada quando precisava se locomover pelos ambientes.
“Desde os dois anos sou PcD, quando fui crescendo eu me sentia diferente das outras crianças, porque não podia correr e queria muito isso, mas fui crescendo e entendendo que não podia. Minha mãe foi maravilhosa, não tinha posses, mas ela me [deu] o melhor amor, carinho e cuidado, me carregou no colo até os 12 anos“, relembra.
A progressão de Marleide veio após várias cirurgias, que a ajudaram a desenvolver sua mobilidade e a conquistar um pouco mais de liberdade. “Aos 32 anos, já morando em Manaus, passei por uma série de cirurgias (pés, posterior da coxa, panturrilha e bíceps femoral, tendões e ligamentos, platinas no fêmur) que me devolveram parcialmente a capacidade de me locomover sozinha, porém com o auxílio de muletas e cadeira de rodas“, conta.
Início da vida de paratleta

Em busca de aumentar sua qualidade de vida, a manacapuruense começou a fazer atividades físicas e ganhou importantes incentivadores em sua carreira: o professor Maurício Abreu e sua filha de coração, Rayane Sales.
“O Professor Maurício Abreu veio me falar que eu tinha potencial para competir nas corridas de rua, achei engraçado, pois nunca gostei de usar cadeira de rodas e ele continuou insistindo, eu respondi: ‘não tenho cadeira Maurício’, ele sorriu e falou: ‘vamos dá um jeito’ e conseguiu uma usada, que junto com minha filha, que é minha maior incentivo hoje, mandaram adaptar essa cadeira que eu corri até conseguir uma cadeira profissional“, destacou a paratleta.
Com disposição, Marleide começou a procurar patrocínios — e se engana quem acha que foi fácil no início, já que ela enfrentou muitos “nãos” até chegar a uma pessoa que apostou em seu potencial.
“Fui atrás de pessoas que pudessem me ajudar. Recebi muitos ‘não’, porque é valor [da cadeira de corrida] muito alto, mas cheguei em pessoa de coração generoso e também corredor muito conhecido por todos, que na hora que falei com ele o sonho de ter a cadeira de corrida, me presenteou com uma, a que uso hoje. Minha eterna gratidão“, declarou.
Primeiras conquistas

A paratleta enfrentou, além dos sustos durante as corridas, o preconceito de pessoas que não respeitam a participação de PCDs nas atividades físicas.
“Nunca pensei em desistir. Já aconteceram alguns acidentes nas corridas, já cai e quebrei a perna em dois lugares e claro, fiquei muito abalada com isso. Tem muitos corredores que vão de fone de ouvido para a corrida e isso é muito perigoso, pois quando usamos o apito, eles não escutam, e às vezes, chegamos a ouvir pessoas falando que deveríamos estar em [casa] e não lá, atrapalhando a corrida. Isso só me motiva a querer fazer melhor e mostrar pro mundo que nosso lugar é onde queremos estar e fazer o esporte que nos deixa feliz“, pontua.
Ao Em Tempo, Marleide conta que os treinos são regrados e que sua cadeira precisa passar por manutenção constante para evitar possíveis acidentes.
“Meus [treinos] eram nas ruas de Manaus, gosto muito de treinar no Parque Mosaico e em casa também, tenho meus equipamentos e minha filha é professora de educação física, me orienta no que preciso. A maior dificuldade foi que a cadeira estava precisando trocar algumas peças devido aos acidentes que tenho nas corridas, e não encontramos as peças e pneus da frente da cadeira em Manaus, está cadeira veio de Goiânia e temos que pedir de lá e sai muito bem caro. Mas isso não me impede de continuar“.
Foi com esse espírito e confiança em sua preparação que a amazonense acumula troféus e medalhas em casa. Presente em corridas no Amazonas, Marleide Sales também conquistou o 1º lugar nos 21 quilômetros da Maratona do Rio de Janeiro em 2024.
‘Borboletinha do Asfalto’ na São Silvestre

Sem patrocínio, a paratleta investiu na venda de rifas para conseguir chegar à corrida de São Silvestre. Durante a prova, Marleide relembrou o momento inicial de tensão, quando enfrentou dificuldades no percurso.
“No começo da corrida, eu em silêncio fiz uma oração pedindo que não acontecesse nenhum acidente e convidei Jesus pra correr comigo e fui. Logo no começo da corrida, tive um pequeno contratempo, as cadeiras se engataram eu que fui jogada pro lado, mas continuei, o coração quase saltitando no peito, fiquei um pouco pra trás e confiando em Jesus, continuei e fui recuperando a posição“, relembra.
O incentivo que a paratleta precisava veio de pessoas conhecidas e desconhecidas que torciam por sua desenvoltura e representatividade amazonense na prova.
“A torcida vibrava comigo e eu gritava ‘é Manaus’ e recebia incentivos como ‘Vai Manaus, você vai vencer a Brigadeiro’. Ouvi uma pessoa chamando ‘Dona Leide, sou eu, o Zé gotinha de Manaus, você está na frente’ e aí as lágrimas umideceram meu olhos, levantei a cabeça procurando ele e entrei. Ele torcendo muito por mim, não tem como não se emocionar e assim, nem senti a tão temida ladeira da Brigadeiro. Foi incrível, não tem como descrever um experiência única, minha primeira vez na São Silvestre. Eu ultrapasso a linha de chegada levando o Amazonas com orgulho ao 1°lugar, fui pra representar meu Estado e todos os PCD’s“, destaca.
Os gritos de incentivo são o combustível que Marleide precisa durante as provas — incluindo um que virou sua marca no mundo esportivo: a borboletinha do asfalto.
“Nas corridas, todos me conhecem, pois uso uma borboletinha atrás da cadeira e eles gritam ‘Vai borboletinha voa, vai dona Leide, a senhora e minha inspiração’, isso aquece meu coração“.
Em busca do sonho

Para continuar trilhando sua carreira cheia de vitórias, a paratleta destaca que necessita do apoio de patrocinadores ou de pessoas de boa-fé que se interessem em ajudar a amazonense a levar o nome do Estado a mais corridas.
“Eu preciso de ajuda pra financiar meus treinos, quem quiser pode ajudar com suplementos, eu preciso pra usar no do meu dia a dia, com tênis, roupa de corrida, tudo é necessário e é um gasto muito alto. As academias podem me chamar, preciso de treino especial, o meu treino é diferenciado“, disse.
Além da preparação física, Sales enfrenta um dos maiores desafios fora das pistas: a falta de uma cadeira de corrida adequada. Com o alto custo de manutenção e limitações do equipamento atual, a paratleta precisa de uma cadeira de competição em fibra de carbono para conseguir evoluir no desempenho, competir em igualdade e continuar representando o Amazonas nas principais provas do país.
“Eu preciso de uma cadeira melhor, uma cadeira com rodas de carbono, mais leve, que me possibilite ter mais velocidade, porém não tenho posse pra comprar e faço um apelo a quem puder me ajudar a conseguir. Também é muito difícil conseguir o custo das viagens, é muito alto pra mim e desgastante ficar o ano todo pedindo pra conseguir o valor necessário pra correr em outro estado. Minha cadeira precisa ser melhor do que a que tenho. Agradeço de coração a todos“, solicita.
Quem tiver interesse em contribuir com a paratleta pode entrar em contato por meio do Instagram: @leide.cadeirantecorredora.
Leia mais: Paratleta amazonense vence São Silvestre
