Um dia após uma delegação dinamarquesa sair frustrada de um encontro com autoridades americanas, países europeus aceleraram, nesta quinta-feira (15), os planos para demonstrar que são capazes de fornecer a defesa da Groenlândia. A estratégia busca dissuadir Donald Trump de avançar sobre a ilha, que pertence ao Reino da Dinamarca.

O presidente francês Emmanuel Macron assumiu a liderança retórica do continente. “Nós vivemos em um mundo em que forças desestabilizadoras acordaram, e certezas que às vezes duraram décadas estão sendo questionadas, com competidores [que a Europa] nunca pensou que veria”, afirmou em discurso na base aérea de Istres, no sul da França.

Sem citar diretamente Trump ou os Estados Unidos, Macron tratou do tema central do dia. O presidente francês convocou o gabinete para uma reunião de emergência às 7h (4h em Brasília) e anunciou o envio de tropas para um exercício militar planejado pela Dinamarca como forma de angariar apoio europeu.

Envio de tropas tem caráter simbólico

“Os primeiros elementos militares franceses já estão em rota. Outros seguirão”, escreveu Macron no X. O movimento, salvo mudanças, tem caráter essencialmente simbólico em termos numéricos.

Na semana passada, a Dinamarca desembarcou alguns soldados na ilha. Na quarta-feira (14), a Alemanha informou que enviaria 13 militares para uma missão de reconhecimento. A Noruega designou três soldados para o mesmo fim. A Suécia também participará, sem divulgar efetivos, e a Finlândia enviará dois militares.

Nem Paris nem Copenhague revelaram o número total de tropas mobilizadas. Ainda assim, não há indicativos de uma grande força-tarefa. Atualmente, o maior contingente militar na Groenlândia é dos Estados Unidos, com cerca de 150 pessoas na base de Pituffik, responsável por controlar satélites e radares estratégicos para detectar lançamentos de mísseis russos e chineses pelo polo Norte.

Groenlândia é peça-chave na estratégia de Trump

Essa relevância militar é um dos fatores considerados por Trump em sua campanha pela ilha, embora ele a misture com a alegação de que Moscou e Pequim desejam tomar a Groenlândia. Além da importância estratégica, a região está próxima de rotas marítimas relevantes e possui potenciais reservas de minerais essenciais para as indústrias de tecnologia e defesa.

Fora da China, líder global no setor e rival dos EUA, a Groenlândia concentra 66% das reservas mundiais de terras raras pesadas, usadas na produção de chips avançados. Atualmente, os Estados Unidos já possuem direitos de exploração por tratado, mas Trump busca o controle total da ilha.

Encontro em Washington reforça tensão diplomática

Na quarta-feira, essa posição foi reiterada aos chanceleres Løkke Rasmussen (Dinamarca) e Vivian Motzfeldt (Groenlândia) pelo vice-presidente J. D. Vance e pelo secretário de Estado Marco Rubio. O encontro em Washington foi descrito como franco e duro pelos europeus, sem qualquer sinal de mudança na postura americana.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reconheceu a dificuldade da missão diplomática. “Há uma desavença fundamental acerca da ambição americana de tomar a Groenlândia”, escreveu no Facebook. Ela prometeu “continuar os esforços para evitar que o cenário vire realidade”, mas admitiu que “não é fácil”.

Apoio europeu não é unânime

Mesmo entre aliados, o apoio não é consenso. Nesta quinta-feira, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, afirmou que seu país não enviará soldados para a Groenlândia, citando preocupações com a Rússia e a invasão da Ucrânia.

Tusk reforçou o alerta já feito por Frederiksen: uma tomada da Groenlândia à força implodiria a Otan. “Seria o fim do mundo como o conhecemos”, afirmou.

Estratégia americana amplia incertezas

A investida de Trump, que em 2026 já atacou e capturou Nicolás Maduro em Caracas e sinaliza uma possível ação militar para apoiar manifestantes no Irã, ignora esse risco. A postura está alinhada à sua nova Estratégia de Segurança Nacional, lançada em dezembro.

No documento, Trump afirma que retomará o controle do entorno estratégico dos EUA e dedica um capítulo à crítica de líderes europeus, classificados por ele como fracos. Apesar da retórica de defesa da Groenlândia, a avaliação expressa por Rasmussen prevalece: se Trump decidir avançar, será difícil resistir.

Rússia observa crise entre aliados ocidentais

Quem acompanha a crise à distância é a Rússia de Vladimir Putin. Nesta quinta-feira, o Kremlin ironizou a ideia de que teria interesse em tomar a Groenlândia, classificando-a como um mito criado por Trump.

Na prática, porém, Moscou se beneficia ao ver aliados europeus de Volodimir Zelenski pressionados pelo principal membro da Otan, justamente quando se discute um possível desfecho para a guerra iniciada há quase quatro anos.

O enviado americano para o conflito, Steve Witkoff, deve viajar em breve a Moscou para discutir uma nova proposta. Em entrevista na quarta-feira, Trump já indicou sua inclinação ao afirmar que Zelenski estaria dificultando mais as negociações do que Putin.

(*) Com informações da Folha de S.Paulo

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