A reestruturação promovida pelo Flamengo em suas modalidades olímpicas tem gerado indignação entre atletas, familiares e profissionais ligados aos projetos afetados.

Em entrevistas, diversas fontes relatam decisões tomadas sem diálogo prévio, comunicadas de forma informal, e uma condução que, segundo eles, demonstra desprezo pelo esporte olímpico, pelo paradesporto e pelo desenvolvimento de jovens talentos.

Pararemo

O caso mais emblemático é o encerramento do pararemo, até então a única modalidade paralímpica mantida pelo clube.

A atleta Gessyca Guerra afirma que o grupo tomou conhecimento da possibilidade de cortes “por rádio corredor”, antes de qualquer anúncio oficial.

Ela explica que a justificativa da gerência sempre remetia a uma ordem direta da presidência, baseada na contenção de despesas, mesmo diante de resultados expressivos em competições internacionais.

“Em todo momento, dizia-se que era por oneração, e que a decisão vinha do presidente BAP, que estava tendo alguns conflitos com outros departamentos de esporte do Flamengo. E aí, teve um determinado momento em que a gente fez a reunião com o gerente. Ele falou, então, que estavam sugerindo que cortassem o nosso salário. E todos nós, de Seleção e nível internacional, e que tinham contrato com o clube, achamos isso desrespeitoso e inaceitável”, relatou.

O projeto paralímpico cresceu, conquistou títulos em Copas do Mundo e garantiu presença em finais de Mundiais.

Desmontar a equipe nesse momento interrompe um trabalho estruturado e competitivo. Para Gessyca, o fim do pararemo evidencia preconceito e falta de comprometimento com políticas de inclusão.

“O que ele fala não tem concordância. Inclusive, verbalizaram isso na minha frente, na frente do Michel e na frente do nosso antigo treinador: ‘o presidente não quer ter pessoas com deficiência no Flamengo’. Assim, ele não quer se dispor com as outras modalidades, com a gerência de outras modalidades para ter pessoa com deficiência, porque ele não quer ter pessoa com deficiência no Flamengo”, disse.

Canoagem

Na canoagem, a condução do processo também foi informal. Gabriel Assunção, um dos atletas desligados, revelou que soube do fim da modalidade por telefone, sem reuniões ou explicações detalhadas.

Apesar de já treinar fora do Rio de Janeiro há anos, ele reconhece que a saída do campeão olímpico Isaquias Queiroz e o encerramento da modalidade causaram grande impacto entre os atletas.

“Pegou todo mundo de surpresa, principalmente no caso do Isaquias. Não houve uma conversa clara com o grupo”, afirmou Gabriel.

Judô

Os cortes não afetaram apenas o alto rendimento, mas também as categorias de base. No judô, o encerramento das divisões sub-13 e sub-15 provocou revolta entre pais e responsáveis.

Isabela Mourão, empresária e mãe de uma atleta mirim, conta que a família ficou arrasada com a decisão. Segundo ela, após a mudança na diretoria, despesas antes cobertas pelo clube passaram a ser repassadas às famílias.

“Antigamente, o Flamengo pagava a federação e as inscrições de todos os campeonatos dos atletas. Sempre foi assim. E assim, logo no início do ano, quando mudou a diretoria, a gente já recebeu a notícia que a gente teria que pagar as competições caso o atleta não medalhasse. Se ele fosse para a competição e não medalhasse, na próxima competição, a gente teria que arcar com as inscrições”, relatou.

Isabela ressalta que o impacto vai além do aspecto esportivo e afeta emocionalmente as crianças, cuja formação em um clube historicamente associado ao alto rendimento é interrompida.

Muitas famílias precisaram buscar rapidamente outras agremiações, enquanto algumas cogitam abandonar a modalidade devido à falta de estrutura e alternativas no Rio de Janeiro.

Situação semelhante ocorreu com Willians Sena, pai das chamadas “Irmãs Sena”, promessas do judô rubro-negro. Ele conta que a filha mais nova, destaque da sub-13, tinha a garantia da comissão técnica de que permaneceria no clube, mas a decisão mudou após reunião da diretoria.

“A comissão técnica até disse que elas iam ficar, deu uma certeza que a minha filha sub-15 ia ficar até ao último momento. Mas, aí, teve uma reunião que eles tiveram em que o presidente disse que não queria que ficasse ninguém, nem sub-13, nem sub-15. Aí cortou a minha filha”.

O processo reflete, segundo Willians, uma opção clara da atual gestão: priorizar modalidades que possam se sustentar ou gerar lucro. Ele afirma que decisões como o fim das categorias sub-13 e sub-15 demonstram que o clube deixou de enxergar essas divisões como parte de seu projeto esportivo.

“Eu acho que é o sonho de toda criança, estar num clube bom, um clube estruturado. Mas eu acho que o presidente do Flamengo está pensando só no futebol, né? Para ele, o esporte olímpico não vale muito”.

O consenso entre atletas e familiares é que as decisões foram abruptas e sem transparência. Para eles, a condução do processo revela uma crise de gestão que ultrapassa ajustes financeiros e coloca em risco o compromisso histórico do Flamengo com o esporte olímpico e a formação de novos atletas.

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(*) Com informações do site Lance!