Kanye West publicou nesta segunda-feira (26) um anúncio no Wall Street Journal pedindo desculpas “a quem ele magoou” por fazer apologia ao nazismo. Segundo a Vanity Fair, o anúncio foi pago pela marca dele, Yeezy.
O músico, que agora adota o nome Ye, se prepara para lançar um novo disco nesta sexta-feira (30). No texto, ele nega ser antissemita e afirma que “perdeu o contato com a realidade”.
“Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu”, escreveu Ye.
O rapper se refere a uma série de declarações feitas desde 2022, quando disse ter “amor” pelos nazistas e manifestou admiração por Adolf Hitler. No ano passado, ele chegou a vender itens com suásticas e lançou a música “Heil Hitler”.
As declarações geraram rompimentos comerciais com grandes marcas e resultaram na perda de seu status bilionário. Além disso, Ye enfrentou dificuldades para se apresentar em diversos lugares, incluindo o Brasil. Um show em São Paulo foi cancelado após manifestação do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e abertura de inquérito pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Segundo o prefeito, a cidade não autorizaria atividades em equipamentos públicos com artistas que façam apologia ao nazismo.
Rapper afirma ter tido episódio de mania
No texto, Kanye relembra um acidente de carro em 2002, que provocou lesões cerebrais e diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1. Ele afirma que entrou em um estado “fragmentado”, que o levou a se aproximar “do símbolo mais destrutivo que ele poderia encontrar: a suástica”.
“Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo, tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e o esgotamento de tentar lidar com alguém que, às vezes, era irreconhecível. Olhando para trás, eu me afastei do meu verdadeiro eu”, afirmou.
Ye já havia falado sobre o transtorno bipolar em outras ocasiões. Ele tem um EP chamado “I hate being bipolar, it’s awesome” e, em 2019, comentou no programa de David Letterman sobre o “forte estigma e discriminação” em torno da doença.
No anúncio desta segunda, ele afirmou que no início de 2025 passou por “um episódio de mania de quatro meses, com comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que destruiu minha vida”.
“À medida que a situação se tornava cada vez mais insustentável, houve momentos em que eu não queria mais estar aqui”, disse Ye, acrescentando que agora busca voltar a um estilo de vida saudável. Ele pede paciência e compreensão, mas afirma que não quer “simpatia nem passe livre”.
Leia o texto completo:
Aos que eu magoei:
Há vinte e cinco anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou uma lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco foi no dano visível — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida.
Exames completos não foram feitos, avaliações neurológicas foram limitadas, e a possibilidade de uma lesão no lobo frontal nunca foi levantada. Isso só foi devidamente diagnosticado em 2023. Essa falha médica causou sérios danos à minha saúde mental e levou ao meu diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1.
O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa: a negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acha que todo mundo está exagerando. Você sente que está vendo o mundo com mais clareza do que nunca, quando, na realidade, está perdendo completamente o controle.
Quando as pessoas te rotulam como “louco”, você sente como se não pudesse contribuir com nada significativo para o mundo. É fácil para as pessoas fazerem piada e rirem disso, quando na verdade se trata de uma doença muito séria e debilitante, da qual se pode morrer.
Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Universidade de Cambridge, pessoas com transtorno bipolar têm expectativa de vida reduzida de 10 a 15 anos, e taxa de mortalidade de 2 a 3 vezes maior que a população geral. Isso é comparável a doenças graves como diabetes tipo 1, HIV e câncer.
A coisa mais assustadora do transtorno é que ele convence você de que não precisa de ajuda. Ele te deixa cego, mas seguro de que tem discernimento. Você se sente poderoso, seguro, imparável.
Perdi o contato com a realidade. As coisas pioraram quanto mais ignorei o problema. Eu disse e fiz coisas das quais me arrependo profundamente. Algumas das pessoas que eu mais amo, tratei da pior forma. Vocês suportaram medo, confusão, humilhação e esgotamento. Olhando para trás, me afastei do meu verdadeiro eu.
Nesse estado fragmentado, me aproximei do símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei a vender camisetas com ela. Um dos aspectos difíceis do transtorno bipolar tipo 1 são os momentos desconectados, muitos dos quais ainda não consigo recordar, que levaram a julgamentos ruins e comportamentos imprudentes.
Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu.
À comunidade negra — que me sustentou em todos os altos e baixos e nos momentos mais sombrios. A comunidade negra é, sem dúvida, a base de quem eu sou. Sinto muito por ter decepcionado vocês. Eu amo nós.
No início de 2025, caí em um episódio maníaco de quatro meses, com comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que destruiu minha vida. À medida que a situação se tornava insustentável, houve momentos em que eu não queria mais estar aqui.
Ter transtorno bipolar é um estado notável de doença mental constante. Quando você entra em um episódio maníaco, você está doente naquele momento. Quando não está, você é completamente normal. É aí que os destroços da doença atingem com mais força. Ao chegar ao fundo do poço há alguns meses, minha esposa me incentivou a buscar ajuda.
Encontrei conforto em fóruns do Reddit. Pessoas diferentes falam sobre episódios maníacos ou depressivos semelhantes. Li suas histórias e percebi que não estava sozinho.
Minhas palavras têm impacto global. Na minha mania, perdi completamente a noção disso.
À medida que encontro minha nova base por meio de medicação, terapia, exercícios e vida saudável, ganhei clareza. Estou canalizando minha energia para arte positiva: música, roupas, design e outras ideias novas para ajudar o mundo.
Não estou pedindo simpatia nem passe livre, embora aspire conquistar o perdão de vocês. Escrevo para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa.
Com amor, Ye.
(*) Com informações do g1
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