A política tarifária adotada por Donald Trump voltou ao centro do debate internacional ao reafirmar uma estratégia que já demonstrou custos elevados e resultados pífios.
Ao insistir na imposição de tarifas amplas sobre importações, Trump reabre um ciclo de incerteza que afeta cadeias globais de valor, encarece produtos e tensiona relações diplomáticas, sem entregar os ganhos prometidos à economia norte-americana.
O argumento central de Trump sempre foi o de “corrigir” o déficit comercial dos Estados Unidos por meio de tarifas punitivas. A experiência recente, contudo, mostrou que o déficit não apenas persistiu como, em vários momentos, se recompôs por outras vias: redirecionamento de importações, substituição de fornecedores e ajustes cambiais. Em termos macroeconômicos, tarifas não atacam as causas estruturais do déficit, como poupança doméstica insuficiente e padrões de consumo, e, por isso, falham no objetivo anunciado.
Para os consumidores e empresas dos EUA, o impacto foi direto no bolso. Tarifas funcionam como impostos sobre importações, repassados ao longo da cadeia produtiva. Insumos industriais ficaram mais caros, margens foram comprimidas e preços finais subiram.
O resultado foi pressão inflacionária adicional, justamente em um contexto em que a estabilidade de preços exigia cautela e coordenação, não choques artificiais de custos.
A inflação, aliás, é um dos efeitos mais regressivos dessa política. Famílias de renda mais baixa sentem com maior intensidade o encarecimento de bens essenciais, enquanto pequenas e médias empresas enfrentam maior dificuldade para absorver custos. Longe de “proteger” o trabalhador americano, as tarifas corroem poder de compra e reduzem competitividade, minando empregos nos setores dependentes de insumos importados.
No plano internacional, a estratégia tarifária provocou retaliações. Parceiros comerciais responderam com medidas equivalentes, atingindo exportações americanas, especialmente no agronegócio e na indústria manufatureira.
O saldo líquido foi um jogo de soma negativa: perdas de eficiência, volatilidade nos mercados e deterioração da confiança, sem ganhos duradouros para qualquer lado.
Diante desse histórico, a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos ao reconhecer a ilegalidade de determinadas medidas tarifárias representa um marco institucional relevante.
O tribunal reafirmou limites legais ao uso discricionário de tarifas, reforçando o princípio de que política comercial deve respeitar o Estado de Direito e os freios e contrapesos do sistema constitucional americano.
Ainda assim, Trump insiste em desafiar esse entendimento, mantendo o discurso e a prática de tarifas generalizadas. Essa postura tensiona a relação entre os Poderes e sinaliza desprezo por decisões judiciais, com potenciais efeitos corrosivos sobre a previsibilidade institucional, um ativo central para investimentos e crescimento de longo prazo.
A insistência no erro também ignora evidências empíricas. Estudos e dados acumulados indicam que tarifas não reindustrializam economias maduras por decreto.
Competitividade exige investimento em tecnologia, educação, infraestrutura e política industrial coordenada, não barreiras que encarecem insumos e isolam mercados.
Para o mundo, a mensagem é igualmente preocupante. A imposição unilateral de tarifas amplia a fragmentação do comércio global, incentiva blocos rivais e enfraquece regras multilaterais. Em um cenário já marcado por riscos geopolíticos, a escalada tarifária adiciona instabilidade desnecessária e custos sistêmicos.
Para os próprios Estados Unidos, o paradoxo é claro: ao tentar “proteger” a economia, a política tarifária acaba prejudicando consumidores, empresas e exportadores, além de pressionar a inflação. O déficit comercial permanece, enquanto a credibilidade do país como defensor de regras previsíveis se desgasta.
Persistir nessa rota, mesmo após o reconhecimento judicial de ilegalidade, é insistir em um erro comprovado. A alternativa responsável passa por respeitar a decisão da Suprema Corte, abandonar o voluntarismo tarifário e adotar uma estratégia econômica baseada em fundamentos que beneficie não apenas os americanos, mas o sistema econômico global como um todo.

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