Desde a minha juventude acompanho a situação de Cuba e, quanto mais leio e observo, mais me convenço de que o fracasso do socialismo na ilha não pode ser explicado só pela ótica do embargo americano. Reduzir a tragédia cubana a uma única variável externa é confortável, mas intelectualmente desonesto.

Como escreveu Maria Hermínia Tavares na Folha de São Paulo, no romance O Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, a decadência do socialismo real aparece de forma quase palpável. Ao entrelaçar as histórias de Leon Trótski, de seu assassino Ramon Mercader e do fictício Iván Cárdenas, Padura expõe a degeneração da Revolução Russa sob Josef Stálin e também o esgotamento moral e material da Revolução Cubana. O destino de Iván — soterrado pelo teto de sua casa em ruínas — é uma metáfora cruel de um país que desaba sobre seus próprios cidadãos.

É verdade que os Estados Unidos impõem um embargo a Cuba desde 1962. É igualmente verdade que decisões mais recentes, como as adotadas no governo de Donald Trump, endureceram restrições. Mas afirmar que o embargo explica seis décadas de estagnação é ignorar fatos centrais.

Durante décadas, o regime liderado por Fidel Castro foi sustentado por volumosos subsídios da União Soviética. A ilha recebeu petróleo subsidiado, crédito farto e apoio comercial preferencial — uma verdadeira montanha anual de rublos que mascarava a ineficiência estrutural do modelo centralizado. Quando a União Soviética ruiu, em 1991, ficou exposta a fragilidade de uma economia dependente, pouco produtiva e incapaz de gerar riqueza sustentável.

O chamado “Período Especial” dos anos 1990 revelou o que muitos já sabiam. Mostrou que o sistema baseado no controle estatal absoluto sufoca iniciativa, distorce preços, desorganiza incentivos e produz escassez crônica. Reformas foram ensaiadas, mas sempre tímidas, mal desenhadas e rapidamente contidas para preservar o monopólio político do Partido Comunista.

Comparações internacionais são inevitáveis. Países como China e Vietnã só conseguiram crescer ao introduzir amplos mecanismos de mercado, ainda que sob coordenação estatal. Cuba, ao contrário, manteve-se presa a um modelo rígido, incapaz de modernizar sua infraestrutura, garantir oferta regular de energia, alimentos e medicamentos ou criar perspectivas para sua juventude.

Reconheço que sanções externas afetam qualquer economia. Mas o embargo não explica o colapso dos serviços básicos, a deterioração urbana, a baixa produtividade agrícola em terras férteis ou a repressão sistemática às liberdades civis. Tampouco explica a incapacidade de atrair investimentos de forma consistente ou de construir instituições transparentes.

Para mim, o dado essencial é que, após o fim do suporte soviético, o regime teve décadas para se reinventar e não o fez. Preferiu preservar o controle político a promover mudanças estruturais profundas. Hoje, o que resta do socialismo cubano é menos a promessa de igualdade e mais um aparato repressivo que sustenta um partido único diante de uma população exausta.

Não nego fatores externos. Mas responsabilizar exclusivamente o embargo é ignorar que o principal bloqueio ao desenvolvimento cubano sempre foi interno: um modelo econômico fracassado, administrado por uma das mais longevas e duras ditaduras da América Latina, que não soube — ou não quis — transformar poder político absoluto em prosperidade para seu povo.

Juscelino Taketomi
Juscelino Taketomi

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